A nova política de Hollande para uma “França forte”

15/01/2014 10:24 - Modificado em 15/01/2014 10:24
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hollandeHollande chama-lhe “aceleração”. A imprensa diz que é uma profunda viragem da sua política económica. O Presidente quer baixar a despesa do Estado e reduzir impostos sobre as empresas. Em nome de uma “França forte”.

 

François Hollande não frustrou as expectativas sobre uma viragem (alguns dizem que de 180 graus) na sua política de relançamento da economia francesa, cujo crescimento ainda não conseguiu vencer a estagnação. Apenas preferiu chamar-lhe “aceleração”. A mudança de discurso foi apresentada em forma resumida na mensagem de Ano Novo aos franceses. Desde então, a imprensa francesa e europeia dedicou um enorme espaço ao debate sobre a inspiração ideológica de François Hollande: socialista, social-democrata ou social-liberal.

 

Alguns analistas chamaram-lhe imediatamente “François Blair” ou, mais modestamente, “Schroeder francês”, numa referência aos dois primeiros-ministros britânico e alemão que levaram a cabo profundas reformas da economia e da Segurança Social no início do século.

 

A palavra “liberal” é sempre mal vista em França, de resto, tanto à esquerda como à direita. Como se não bastasse este debate, a sua ligação amorosa com uma actriz francesa, revelado por uma revista de escândalos, fazia prever um enquadramento “catastrófico” (disse o Monde) para a sua primeira conferência de imprensa de 2014 (e a terceira desde que iniciou o mandato) para apresentar as grandes linhas da sua política para o ano que começa agora.

 

A 31 de Dezembro o Presidente francês propôs aos empresários um “pacto de responsabilidade”, oferecendo-lhes a redução dos custos do trabalho e a simplificação drástica da burocracia a troco de um compromisso para criar emprego e manter o diálogo social. Nesta terça-feira, anunciou que essa redução da carga sobre o trabalho seria de 30 mil milhões de euros. Na mesma mensagem, o Presidente prometeu tomar medidas a sério para reduzir a despesa do Estado (57% do PIB e uma das mais altas do mundo), poupando, nomeadamente, na Segurança Social, como a única forma de poder baixar os impostos às empresas e aos cidadãos.

 

Também não escondeu que o principal problema da economia francesa é a sua constante perda de competitividade em face dos seus grandes parceiros europeus, em particular da Alemanha. Nesta terça-feira, Hollande concretizou as suas intenções quanto à redução do peso do Estado: além do corte de 15 mil milhões de euros previsto no Orçamento deste ano, quer chegar a 2017 com menos 50 mil milhões.

 

Quanto ao affair, que suscitou algumas perguntas directas e indirectas, o Presidente disse que “cada um na sua vida pessoal pode atravessar maus momentos”. “É o nosso caso e são momentos muito dolorosos.” Mas são “privados”. Prometeu mais esclarecimentos até Fevereiro, provavelmente antes da sua deslocação aos EUA, mas já depois da visita prevista para a Turquia.

 

Hollande sabe que os franceses respeitam esta distinção entre público e privado mesmo ao ocupante do Eliseu. Sabe também que o seu nível de aprovação não passa dos 25%, o mais baixo de um Presidente da V República, e que, portanto, já não tem grande coisa a perder se resolver arriscar no domínio da economia. “A França deve, imperativamente, reencontrar a sua força económica.”

 

Este “pacto de responsabilidade” com as empresas será “o maior compromisso social há décadas” e só ele poderá gerar emprego – a sua grande promessa ainda não cumprida. Passará pelos cortes da despesa pública e dos impostos (a começar pelas empresas), o que não deixa de ser irónico depois de ter passado um ano a aumentá-los.

 

Liberalismo, não

Percebeu que os custos de produção franceses não podem continuar a ser maiores do que os dos seus principais parceiros, enquanto a produtividade cai. Mas negou qualquer conversão ao “liberalismo”, palavra perigosa em França, nem se converteu à palavra “austeridade”, que nunca pronunciou desde que foi eleito. Prefere falar de “rigor”. Nesta terça-feira, disse que “não se trata de inflectir o sentido da marcha, mas de acelerar a marcha”.

 

Os empresários já tinham reagido bem à sua mensagem inicial. As hesitações da UMP face ao seu inesperado discurso provam que tocou em questões que fazem parte da agenda política do centro-direita.

 

O seu raciocínio é simples: uma França economicamente fraca e pouco competitiva não poderá pesar sobre a liderança europeia (como se tem visto), nem manter o seu estatuto internacional. Falta ver agora como será concretizada esta nova estratégia económica, que enfrentará fortes reacções dos sindicatos e do seu próprio partido, onde uma ala esquerda continua apegada aos velhos dogmas do poder do Estado e da guerra de classe contra os patrões.

 

Apesar do seu enorme desgaste político e do desamor dos franceses, Hollande apresentou-se sereno e determinado no esplendor do Eliseu, perante o seu Governo (a que foi atribuindo as tarefas para preparar as reformas) e mais de 500 jornalistas creditados na presidência. Nunca perdeu a compostura, mesmo nas perguntas sobre a sua vida íntima e sobre quem representa o papel de primeira-dama, que não tem um estatuto oficial no seu país.

 

A França pode não gostar do seu pragmatismo, depois de um primeiro ano errático. Mas o seu caso não é único. Também François Mitterrand fez uma viragem de 180 graus na sua política económica em 1983, quando viu que ela estava a enfraquecer a economia francesa.

 

 

publico.pt

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