Todos os caminhos dos líderes mundiais vão dar à China

4/12/2013 08:53 - Modificado em 4/12/2013 08:53
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politicaPor estes dias, o mundo parece convergir para o Grande Palácio do Povo, em Pequim. No período de uma semana, são vários os líderes ocidentais que vão, um de cada vez, reunir-se com a cúpula governativa chinesa. As razões que motivam os diversos périplos são muitas, mas todas apontam num mesmo sentido: cada vez mais a política mundial se decide no Império do Meio.

 

Das ilhas britânicas, o primeiro-ministro, David Cameron, iniciou na segunda-feira uma visita imbuída de um grande pragmatismo económico. O vice-presidente norte-americano, Joe Biden, irá passar por Pequim depois de uma visita ao Japão para acalmar as tensões em torno da disputa sobre o espaço aéreo regional. O desfile de líderes prossegue na quinta-feira com a chegada do primeiro-ministro francês, Jean-Marc Ayrault, com a indústria nuclear na agenda. E nem a grave crise política que o Presidente ucraniano, Viktor Ianukovich, tem em mãos o fez adiar a visita que tinha marcado para esta semana.

 

Foi acompanhado pela maior comitiva empresarial de sempre numa visita à China que Cameron se reuniu na segunda-feira com as principais figuras do Governo chinês. O “roteiro” foi traçado pelo próprio primeiro-ministro num artigo de opinião publicado no semanário chinês Caixin, com um título que transpira optimismo: “A minha visita pode ser o início de uma relação que vai beneficiar a China, o Reino Unido e o mundo”.

 

A visita de Cameron está ensombrada pela recepção do primeiro-ministro ao Dalai Lama, em 2011, considerada por Pequim uma afronta à sua própria soberania sobre o Tibete, território que reivindica a auto-determinação. Agora, o objectivo é “virar a página” nas relações entre o Reino Unido e a China, ou seja, colocar a tónica numa abordagem económica e deixar de lado os temas polémicos.

 

Os analistas consideram que Cameron está a “esforçar-se demasiado” para agradar a Pequim, e alguns comentadores, como John Ross no The Guardian, falam em “humilhação”. “A lição de que a China é hoje um grande poder e o Reino Unido não, foi forçosamente aprendida em casa”, escreve Ross.

 

Em Pequim, Cameron fez do acordo de comércio livre entre a UE e a China o grande trunfo da sua visita. Londres prevê que, no âmbito desse tratado, as trocas comerciais bilaterais ascendam a cerca de 738 mil milhões de euros até 2020. Mas nem todos na Europa partilham do entusiasmo britânico em acelerar o acordo UE-China, considerado “prematuro”, por fontes da Comissão Europeia, citadas pelo Financial Times. Alguns países europeus, como a França, por exemplo, questionam se as economias dos dois espaços estão suficientemente alinhadas para embarcar num acordo deste calibre.

 

Da diplomacia ao nuclear

É com pinças que Joe Biden vai lidar com os encontros que irá manter no périplo esta semana, iniciado nesta terça-feira no Japão, e que vai passar pela China e pela Coreia do Sul. Depois da tensão da semana passada, provocada pelo anúncio do estabelecimento por Pequim de uma Zona de Identificação de Defesa Aérea que abrange as ilhas Senkaku – arquipélago desabitado administrado pelo Japão que a China reivindica -, Tóquio e Seul querem ouvir do seu aliado -americano a garantia de apoio incondicional. Por outro lado, Washington não quer entrar num confronto directo com uma China cada vez mais assertiva na sua posição como líder regional.

 

Até agora, os EUA deram sinais mistos. Depois de condenarem a decisão de Pequim, o Departamento de Estado informou as companhias aéreas civis para acatarem a obrigação de comunicarem à China sempre que sobrevoem a zona em causa, uma medida que causou perplexidade às autoridades japonesas.

 

Cabe agora a Biden acalmar os ânimos no Extremo Oriente. “Realisticamente, a viagem de Biden pode e deve funcionar como uma personificação do habitual apelo norte-americano à contenção, rejeitando um conflito que ninguém deseja”, defende o professor de Relações Internacionais da Universidade de Pequim, Zha Daojing, citado pelo China Daily.

 

Na quinta-feira, será a vez de Jean-Marc Ayrault, também ele acompanhado de uma larga comitiva de empresários, ser recebido pelo Presidente chinês, Xi Jinping. A visita celebra os 30 anos de cooperação nuclear entre os dois países e o Eliseu espera assegurar a construção de dois reactores nucleares em Taishan, no sul da China. Em 2014, será Xi a visitar Paris, para a comemoração dos 50 anos do reatamento das relações bilaterais diplomáticas. “Esperamos fazer de 2014 um ano franco-chinês susceptível de tocar a maior parte do mundo”, declarou Ayrault.

 

O poder de atracção de Pequim para os líderes é tão forte que nem mesmo o muito acossado Ianukovich cancelou a viagem, tendo partido ontem, enquanto nas ruas de Kiev se continua a pedir a sua demissão. “Ianukovich está a tentar mostrar que a UE e a Rússia não são os únicos parceiros possíveis para a Ucrânia”, explicou à Reuters Volodimir Fesenko, do think-tank Penta. No entanto, a incerteza sobre o futuro político da Ucrânia irá pesar na decisão dos governantes chineses em auxiliar o país, a quem já emprestou dez mil milhões de dólares.

 

A China aparece como um ponto de passagem obrigatório nos roteiros de qualquer governante, tenham em vista os apetitosos laços comerciais com a economia que mais cresce no globo ou as relações diplomáticas em que Pequim é hoje um jogador crucial.

 

 

publico.pt

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