Rumores de recrutamento forçado para o Exército moçambicano puseram a Beira em pé de guerra

29/11/2013 08:55 - Modificado em 29/11/2013 08:55
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mocambiqueRumores de que o Exército estaria a fazer recrutamento compulsivo de jovens causaram tumultos na Beira, em Moçambique, na quarta-feira. O balanço final foi de dois mortos e 34 feridos, alguns em estado grave, segundo informação do director do Hospital Central da Beira à televisão estatal de Moçambique.

 

Os números confirmam a informação dada ao PÚBLICO por Francisco Raiva, jornalista do diário O País na Beira, mais de mil quilómetros a norte de Maputo. O mesmo repórter disse que a situação está, nesta quinta-feira, “muito calma”.

 

“Uma pessoa morreu na sala de reanimação e uma outra foi levada directamente para a morgue”, disse o director do hospital, César Gaspar.

 

As vítimas mortais são uma criança, que terá sido atropelada por um camião – noutra versão teria caído de um camião em movimento –, e outra pessoa, alegadamente atingida por disparos.

 

O diário O País relaciona os violentos acontecimentos com informações que, nos últimos dias, circularam nas redes sociais indicando que na província de Sofala, principalmente na Beira, agentes da Polícia da República de Moçambique e do Centro Provincial de Recrutamento teriam em curso uma operação de recrutamento compulsivo, vulgarmente conhecida como Operação Tira Camisa. Essas informações levaram a que muitos jovens evitassem sair à rua.

 

Mas, na quarta-feira, populares enfurecidos resolveram protestar contra o suposto recrutamento, queimando pneus e impedindo a circulação para os bairros de Munhava, Inhamzua e Manga, entre outros. A polícia lançou gás lacrimogéneo e, incapaz de dispersar os manifestantes desse modo, terá recorrido a outro tipo de armamento.

 

O jornal oficioso Notícias atribuiu também os distúrbios à “desinformação cuja origem as autoridades militares, policiais e municipais ainda estão a investigar”. “Muitos jovens insurrectos fizeram-se à via pública empunhando objectos contundentes e paus, incendiando pneus, virando contentores de lixo e ateando-lhes fogo, o que só terminou depois da intervenção policial”, escreveu.

 

O Ministério da Defesa desmentiu a informação de que estaria em curso um recrutamento compulsivo e disse que se tratou de um boato para descredibilizar o serviço militar e agitar a população. “Trata-se de um boato visando desacreditar o cumprimento deste dever sagrado para com a pátria pelo jovem”, disse também o director de recursos humanos da Ministério da Defesa, Edgar Cossa. O ministro Filipe Nysui disse já nesta quinta-feira que “uma delegação de alto nível do Ministério da Defesa se deslocou à Beira, para averiguar o que se passou”.

 

Os acontecimentos da Beira ocorrem na fase mais crítica do processo de paz que Moçambique vive desde o fim da guerra civil, em 1992. As divergências no terreno político – com acusações da Renamo (Resistência Nacional Moçambicana, antiga guerrilha e principal partido da oposição parlamentar) de falta de independência da legislação e dos órgãos eleitorais e partidarização do Estado – passaram para o campo militar, como ataques de antigos guerrilheiros no centro do país e ofensivas do Exército contra redutos dos antigos rebeldes.

 

A Renamo boicotou as eleições autárquicas da semana passada, que deram a vitória na maioria dos municípios à Frelimo (Frente de Libertação de Moçambique, no poder). O dado novo das eleições foi a forte votação no Movimento Democrático de Moçambique (MDM), que não só confirmou os dois municípios que já liderava – Beira e Quelimane – como registou importantes progressos, mesmo em zonas de tradicional domínio quase absoluto da Frelimo, como Maputo e Matola.

 

 

publico.pt

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