Ataque em Beirute mostra que o Irão já é um alvo do conflito sírio

20/11/2013 09:10 - Modificado em 20/11/2013 09:10
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guerra siriaRadicais sunitas reivindicaram o duplo atentado suicida que terça-feira matou 23 pessoas e feriu outras 150 frente à embaixada do Irão em Beirute, em retaliação pelo envolvimento do Hezbollah na guerra da Síria. Foi o terceiro atentado desde o início do ano contra bairros de maioria xiita, mas esta é a primeira vez que a violência visa directamente o regime iraniano, principal patrocinador da guerrilha libanesa e do regime de Bashar al-Assad, mostrando que os riscos de contágio do conflito não se limitam já ao Líbano.

 

As duas explosões abalaram o bairro de Bir Hassan cerca das 9h40 (7h40 em Portugal continental) e, depois de várias informações contraditórias, o Exército libanês confirmou que em ambos os casos foram provocadas por suicidas. O primeiro chegou numa motorizada e detonou os explosivos que transportava junto ao portão de acesso ao recinto da embaixada. Dois minutos depois, um carro armadilhado conduzido por um segundo homem explodiu a alguns metros de distância.

 

Imagens divulgadas pelas televisões libanesas mostravam mais de uma dezena de carros a arder, corpos calcinados e as ruas cobertas de destroços e vidros arrancados de prédios vizinhos. “Só numa das entradas da embaixada contei seis mortos”, contou um operador de câmara da Reuters.

 

O portão de ferro da embaixada foi derrubado, mas o interior da representação, protegido por altos muros, não foi atingido pelas explosões. A televisão Al-Manar, propriedade do Hezbollah, anunciou que o adido cultural da embaixada, que estaria a chegar ao trabalho, morreu no atentado. Mas, ao final do dia, o Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano corrigiu a informação, adiantando que Ibrahim Ansari estava internado em estado crítico num hospital de Beirute.

 

Numa primeira reacção, o primeiro-ministro libanês, Najib Mikati, denunciou mais este “acto terrorista cobarde” e disse não ter dúvidas de que “visou desestabilizar a situação no Líbano e usá-lo como arena para enviar mensagens”. A ligação ao conflito que desde 2011 devasta a vizinha Síria era clara nas entrelinhas e não foi preciso esperar muito para obter confirmação.

 

“Heróis sunitas do Líbano”

Numa mensagem através do Twitter, as brigadas Abdullah Azzam anunciaram que o ataque “foi uma operação de martírio conduzida por dois heróis sunitas do Líbano”. O jornal L’Orient Le Jour escreveu que se trata de um grupo jihadista com ligações à Al-Qaeda (adoptou o nome do líder religioso palestiniano que foi mentor da jihad e de Osama bin Laden) e que tem muitos dos seus membros a combater ao lado dos rebeldes sírios. Na mensagem, o líder da organização ameaçou lançar novos ataques a menos que o Hezbollah “retire as suas forças da Síria” e sejam libertados salafistas detidos nas prisões do Líbano por suspeita de ligações a grupos terroristas.

 

O Hezbollah repetiu o que dissera quando, em Julho e Agosto, carros armadilhados explodiram em bairros de maioria xiita de Beirute, o último dos quais provocou 27 mortos. “Vamos continuar os nossos esforços para derrotar Israel e os terroristas”, disse à Reuters o deputado Ali Ammar, repetindo o argumento de que, por trás da rebelião sunita na Síria, está o inimigo número um do Hezbollah. O Irão usou palavras idênticas para condenar “um crime desumano e odioso dos sionistas e dos seus mercenários”, enquanto um comunicado do Governo de Damasco lido na televisão estatal apontava baterias às monarquias árabes, principais financiadoras da rebelião: “O odor dos petrodólares exala de todos os actos terroristas que atingem a Síria, o Líbano e o Irão.”

 

Declarações que somadas ao novo atentado em Beirute mostram como a guerra na Síria, que começou com protestos pacíficos contra Assad, ameaça alastrar a todo o Médio Oriente, opondo xiitas (ramo a que pertence a minoria alauita do Presidente Bashar al-Assad e que tem no Irão a sua principal potência) a sunitas (a maioria da população síria e dos que se rebelaram contra o regime, apoiada pelas monarquias árabes).

 

O Líbano, um país mosaico onde as tensões entre as duas comunidades são mais latentes, tem sido progressivamente arrastado para o conflito: o Hezbollah está a combater ao lado das forças de Assad, tendo sido decisivo em algumas das conquistas feitas pelo regime nos últimos meses; os sunitas libaneses querem o derrube de Assad e, além do envolvimento de jihadistas nos combates, muito do dinheiro e armas entregues aos rebeldes chega à Síria através do Líbano.

 

“A tragédia de hoje deve ser um sinal de alarme para todos nós. Se não o tivermos em conta, isto poderá engolir-nos a todos”, reagiu Mohammad Javad Zarif, o chefe da diplomacia iraniana, que numa entrevista recente à BBC avisou que a tensão sectária é a principal ameaça à paz, não apenas no Médio Oriente.

 

 

 

cm.pt

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