Apanhadores de areia com a sobrevivência ameaçada

19/11/2013 00:54 - Modificado em 19/11/2013 00:54
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areiaOs cidadãos que labutam na apanha da areia nas praias da cidade da Ribeira Grande, Santo Antão, passam por dias difíceis. É que têm de passar várias horas debaixo do sol para recolherem a quantidade de areia que sirva para encher um camião. E agora, a situação piorou porque com o aumento da oferta, o preço está a ser equacionado pelos compradores, uma situação que acaba por prejudicar o negócio, uma vez que quem passou a lucrar é o cliente.

 

Para alguns chefes de família a situação por que passam é de penúria, pois tem sido penoso amealhar dinheiro para levar para casa e sustentar os filhos. É que o preço da areia baixou devido à quantidade desse material que se acumulou nas praias. Os entrevistados que fizeram da extracção da areia o seu ganha-pão, sublinham que “um carregamento de um camião, tido como a alma no nosso negócio, baixou de 6000 para 3500 escudos”.

Os apanhadores afirmam que o preço das viaturas de pequeno porte também sofreram cortes que acabaram por desvalorizar a mão-de-obra. Revelam que os preços dessas viaturas variam entre 500 a 1000 escudos. E que ainda têm de pagar 150 a 300 escudos a cada pessoa que ajude a encher a viatura pelo que, por vezes, depois de pagarem as dívidas regressam a casa com menos de dois mil escudos nos bolsos.

 

Ganha-pão

João Santos tem 52 anos, mora na zona da Ribeira da Torre e é pai de cinco filhos. A família de João vive da venda da areia, pois o chefe de família conta com 30 anos a labutar nas praias da cidade da Ribeira Grande. E foi através dessa actividade que conseguiu enviar o seu filho mais velho para a universidade e ainda pagar os estudos a dois filhos no ensino secundário.

O entrevistado frisa que “o sustento da minha família provém da venda da areia. Pois se hoje tenho uma casa foi graças ao dinheiro ganho na apanha da areia. Por outro lado, tive condições para pagar os estudos dos meus filhos. Noutros tempos cheguei a juntar muita areia e ganhar 200 mil escudos por mês. Mas hoje, para além da concorrência, os compradores apresentam um preço irrisório devido à existência de muita areia”.

Hoje a história muda de figura e João tem de sair de casa às seis horas com a sua pá e dois baldes para tentar vender pelo menos um camião de areia. Este chefe de família acrescenta que “estamos a matar a vida por pouco dinheiro, mas a verdade é que se cruzarmos os braços, o pão falta na mesa e a nossa família reclama por dificuldades”.

 

Vida nova

Raul Fortes e Armando Oliveira partilham da opinião de João e asseguram que não sabem fazer mais nada senão extrair areia. Raul e Armando dizem que encontraram uma solução para driblar o problema: acumular grandes quantidades de areia num local e aguardar pelos “bons” tempos da venda de areia, isto é, pelos meses de Dezembro, Janeiro e Fevereiro “onde a areia rende muito dinheiro e perspectiva uma boa qualidade de vida”.

Por agora, estes homens driblam as más condições do mar “que muitas vezes suga parte do material acumulado” e no dia-a-dia vão vendendo aquilo que podem, arranjando o “stock” para os tempos vindouros.

O rosto destes cidadãos demonstra o sofrimento por que passam debaixo do sol para conseguirem algum dinheiro que chegue para sustentar a família. À noite, quando chega a escuridão, recolhem-se para as próprias casas com a sensação de que o amanhã será melhor que o dia de hoje… Mas não tem sido.

 

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