Classe média mindelense à beira do precipício: cortar onde até onde não se pode cortar

18/11/2013 00:01 - Modificado em 17/11/2013 22:10

Falta de dinheiroA chamada classe média também sofre com os efeitos da crise na ilha de São Vicente. Normalmente não se queixam. Mas sem aumento de vencimentos e com a economia estagnada, os custos aumentam todos os meses e a solução é cortar onde, ainda se pode cortar.

 

Como vimos nas reportagens anteriores com os jovens e com as camadas mais carenciadas da população mindelense, a crise não é uma figura de estilo, mas sim um pesadelo que afecta o modo de vida e coloca as pessoas no limiar da sobrevivência. A dita classe média mindelense também não tem motivos para estar descansada. Pelo contrário, está apreensiva e já começou a cortar onde pode cortar. As primeiras vítimas são as empregadas domésticas. Paulo e Neusa têm uma renda mensal de 180 contos e o primeiro corte foi nos 11 mil escudos que pagavam à empregada. O segundo, um dos filhos que estava a estudar fora teve de regressar. O casal, sem aumento há mais de três anos, não conseguiu aguentar os sucessivos aumentos dos serviços e produtos e teve de fazer cortes. Agora não tem empregada doméstica, não tem férias e o filho está a estudar numa universidade local. Com dois empréstimos no Banco, um para a casa e o outro para o carro, estão a fazer de tudo para não entrarem em incumprimento. Mas dão graças porque embora sem aumentos de salários e outras regalias, mantêm os empregos.

 

Roberto Lima, advogado exercendo há doze anos, declara de forma clara que a crise “para mim já chegou há algum tempo, isso é visível quando chego ao fim do mês e as compras são em menor quantidade, ou seja, compramos pouco por muito dinheiro”. A mulher do advogado é funcionária da Telecom. Já viajaram muitas vezes para o exterior mas desde o ano passado não têm saído do país”. Antes viajávamos muito mas há algum tempo que não temos viajado porque estamos em contenção de despesas porque neste momento temos dois filhos na Universidade, um em Portugal e outro no Brasil”. O casal dá prioridade para os filhos virem a Cabo Verde: “em vez de viajarmos os nossos filhos vêm de férias para Cabo Verde”. Antigamente tinha uma empregada mas agora optamos por uma diarista que vem 3 vezes por semana, assim pagamos menos”, declara o advogado.

 

Maria Santos, professora do EBI, há 32 anos afirma que tem sentido as consequências da crise: “a crise está visível em Cabo Verde, basta vermos as condições de vida dos são-vicentinos, cada vez piores”. Ela acrescenta ainda que “há muitas coisas que eu comprava por um preço alto e nem notava e, agora, compro os mais baratos; actualmente vejo os preços depois faço as compras, o contrário de, por exemplo, há cinco anos atrás”.

 

“O meu marido Djô Santos, é emigrante reformado e neste momento temos um filho a estudar em Portugal. Actualmente fazemos contas às nossas despesas para que não falte nada, o outro está na escola Salesiana, até agora não temos tido problemas” mas mesmo assim, a família Santos já começou a diminuir algumas despesas que não deixam muita falta “tivemos que diminuir alguns gastos como empregada doméstica e alguns produtos compramos em menor quantidade”.

 

Questionada se já fez viagens internacionais, ela adianta que “já viajei para a Holanda duas vezes, França e Itália uma vez, mas já se passaram três anos desde que viajei pela última vez”.

 

Diferente da professora, a dentista da Clínica Odontoclínica, Isaurinda Lopes que afirma que ainda não sentiu os efeitos da crise: “para mim não há crise em Cabo Verde, temos sim sentido consequências da crise nos outros países, se ela aumentar, com certeza que sentiremos mais, estamos a passar por dificuldades mas eu não diria crise”.

 

Há três anos Isaurinda tem-se dedicado à consulta para crianças e diz que “os pais podem estar sentindo a crise, mas não dá para confirmar porque os cabo-verdianos ainda não consciencializaram a importância de uma consulta dentária”. A dentista diz que nos últimos tempos não tem viajado por questões profissionais e a vida tem continuado como era antes.

 

Para alguns, a crise já chegou mas, mesmo assim, ainda conseguem levar a vida de forma estável, fazendo alguns reajustes, mas temem que os seus clientes possam ter falta de dinheiro para ir ao dentista e ao advogado.

 

  1. Silvério Marques

    Felizmente há pessoas que vivem numa torre de marfim donde não conseguem ver a crise em Cabo Verde mas sim os reflexos da crise internacional em Cabo Verde. Triste para uma pessoa com formação universitária. Um país, como Cabo Verde não pode ir ao mercado financiar-se, tem de viver de empréstimos de paises amigos. Portugal que vive uma crise profunda é o maior financiados de Cabo Verde e quem nos paga muitos juros. Vejam a nossa situação. OS MAIS POBRES DA EUROPA SÃO OS QUE MAIS NOS DÃO DINHEIRO.

  2. joao

    O pior cego é aquele que não quer ver.
    Pai, perdoai-lhes porque não sabem o que dizem!

  3. Tafu

    Estamos numa crise tão profunda que dá medo de estar vivo,mas Deus que nos proteje.Quem ainda não sentiu esta crise ou dá graças a Deus ou alguma coisa se faz a mais. Enquanto o pessoal do governo dá arotos de tanto estar fartos o povo faz pelo sinal da cruz de tanto passar fome,juntamento com os empregados da inps e electra que vão comendo o que o povo é roubado. Se o jmn não diminuir o dinheiro aos deles e começando por ele e aqueles palhaços dos deputados agora vão comer é bife humano.

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