“Os problemas de segurança do século XXI estão a nascer na Síria”

4/11/2013 00:29 - Modificado em 4/11/2013 00:29
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siriaO mundo está sem polícias e isso não é bom, defende um dos dissidentes sírios que melhor conhece os palcos do poder em Washington. E diz que os EUA e a Europa podiam ter evitado esta espiral de loucura.

 

Os Estados Unidos e a Europa podiam ter evitado a espiral de loucura na Síria, logo em 2011, defende Ammar Abdulhamid, dissidente e activista dos direitos humanos a viver em Washington desde 2005. Para este sírio, o primeiro a testemunhar sobre os crimes do regime que Bashar al-Assad herdou do pai, Hafez, no Congresso norte-americano, não fazer nada não é uma opção para os líderes mundiais. Ser é, mas os demónios sírios vão transbordar da Síria e do Médio Oriente. Primeiro, vão chegar à Europa.

 

“A Europa não se vai poder proteger das consequências. Vamos esquecer os refugiados e os jihadistas, alguns deles europeus, estão na Síria e vão voltar para a Europa. Podemos esquecer-nos disto tudo e pensarmos apenas em sinais recentes: há indicações fortes de que membros de grupos de extrema-direita, gregos e não só, estão neste momento na Síria, a lutar ao lado de Assad, e esta gente vai regressar com uma agenda”, diz Ammar, a meio de uma conversa de mais de duas horas num fim de tarde de Outubro em Gaziantep.

 

Esta cidade do Sul da Turquia é uma das muitas cidades turcas que se estão a tornar numa espécie de Síria futura ou sonhada: vêm activistas que vivem noutros países treinar gente que vive na Síria, como Ammar, formam-se centros de estudos entre académicos sírios e de outros países da região, nascem organizações não governamentais entre refugiados de agora e refugiados de há décadas. Antakya, na província a ocidente, está mais perto de uma espécie de central de primeiros-socorros, Reyhanli, junto à fronteira, ali nascem centros médicos, escolas, hospitais. Gazientep é mais uma capital sem governo.

 

Foi aqui que Ammar decidiu dar o seu contributo – para além da intervenção política que mantém nos Estados Unidos, onde sente que é cada vez menos ouvido, para além da crónica da revolução e da desgraça síria que vai fazendo nas redes sociais e em blogues, para além dos projectos de futuro. Agora, aqui, Ammar treina activistas sírios que regressam à Síria determinados a não deixar que o seu país seja só o inferno que outros parecem querer fazer dele.

 

A revolução síria começou, pacífica e esperançada, em Março de 2011. Aconteceram tantas desgraças desde então. Agora, jihadistas do mundo inteiro combatem a oposição a Bashar al-Assad no Norte, ao mesmo tempo que regiões inteiras junto a áreas controladas pelo regime estão cercadas e a ficar sem comida, com o Inverno a avançar, já para não falar dos médicos que fugiram e da ajuda que não chega, dos milhões de refugiados, dos mais de 100 mil mortos, mais de mil dos quais num ataque com gás sarin a 21 de Agosto, nos arredores de Damasco.

 

Os ataques de Agosto levaram Barack Obama a ameaçar com uma acção militar para travar Assad e deram depois origem a um processo de desarmamento – está em curso e tem como objectivo a destruição do arsenal químico da Síria. Em simultâneo, norte-americanos e russos tentam reactivar algum tipo de processo de paz entre o regime e a oposição. Um encontro, conhecido como Genebra II, deverá acontecer antes do fim do ano, patrocinado pela ONU.

 

“A Al-Qaeda já desenhou as fronteiras do seu estado, estão a usar todo este tempo antes de Genebra II para aumentar o cerco, já têm a cidade de Raqqa, estão quase a ter Deir Ezzor”, descreve Ammar. Raqqa e Deir Ezzor são cidades do Norte da Síria. “Há muitos islamistas diferentes, alguns são moderados, mas todos querem um estado islâmico. A última tendência é estes islamistas moderados aproximarem-se do regime para combater a Al-Qaeda e isso é mais uma forma de queimar os opositores seculares, no fim seremos os traidores”, diz.

 

“Caminhamos para uma fase onde as opções disponíveis serão apoiar Assad ou não, e eu não vou apoiar Assad”, lamenta o dissidente, 47 anos, os últimos no exilio norte-americano, para o ano já deve ser cidadão dos EUA, ele, a mulher e os dois filhos. “Eu vou ficar à espera, a fazer o que posso, para salvar o que puder ser salvo no fim.”

 

Os refugiados

 

Ammar não percebe como é a Europa está convencida de que pode sair disto sem ser atingida pelos estilhaços. “Há uma grande crise de liderança, isso ajuda a perceber como chegámos aqui”, diz.

 

“A Europa devia pensar nas implicações de segurança”, defende Ammar. Genebra II podia fazer sentido, diz o activista: “Precisamos de um processo de negociações, mas um que realmente imponha regras, sem o fazer dá-se poder a Assad e aos outros loucos para aumentarem a parada. Se não conseguimos gerir a insurreição síria, tudo bem, daqui a umas semanas, podemos ter insurreições noutros países, noutras partes do mundo. Não façamos nada”.

 

Não fazer nada é sempre uma opção, mas o que Ammar, formado em História e em Astronomia nos EUA, avisa é que isso vai ser “esmagador”.

 

“Os refugiados virão em massa, os europeus estão na linha da frente. Veja-se como foi difícil integrar alguns muçulmanos, houve erros dos dois lados, dos europeus, dos imigrantes, com os extremistas e a importância que lhes é dada a não ajudar, mas ainda estamos a resolver isso. O que aí vem vai criar muitas crises na Europa e isso acabará por ter implicações internas. Com violência à porta, por todos os lados, os problemas não terão sequer de vir de jihadistas internacionais”, defende. “Há a possibilidade que grupos de extrema-esquerda e de extrema-direita europeus se unam liderados por populistas e façam muitos estragos. Se calhar agora ninguém vai acreditar nisto, daqui a uns dois anos pode ser senso comum. Tanta coisa que dizíamos sobre a Síria era bizarra e agora é óbvia.”

 

Os refugiados estão a chegar, isso é verdade. “Quando as pessoas começam a notar alguma coisa isso quer dizer que já é um grande fenómeno, difícil de enfrentar, de gerir”, afirma Ammar. “Os problemas de segurança do século XXI estão a nascer neste momento, na Síria.”

 

O pior dos presidentes

 

Ammar é demolidor quando se trata de descrever o desempenho do Presidente Obama. “O Presidente Obama é um dos piores presidentes que já vi em termos de política externa e eu sei que isto soa estranhado, estou a compará-lo com a Administração Bush, mas é mesmo assim. Às vezes não é preciso fazer grande coisa para provocar um desastre global. A inacção é muitas vezes tão desastrosa como a acção”, afirma o sírio que se já pudesse votar nos EUA teria dado o seu voto a Obama, “não uma mas duas vezes”.

 

“Os EUA estão fartos de serem o polícia global, o que eu entendo e aceito. O problema é que eles querem abdicar desse papel sem que tenha surgido um substituto, eles iniciaram esta atitude a que eu chamo de “shirk”n shift”, evitar a responsabilidade e desviar-se da culpa, é a política externa de Obama. Não é a nossa responsabilidade e a culpa é da comunidade global, foi o que Obama disse na ONU sobre a Síria”, descreve Ammar. “Tudo bem, mas isso deixa um enorme buraco aberto na segurança internacional e quem vai ocupar esse vazio é o Irão, são os russos, é o Hezbollah [libanês], é a Al-Qaeda, e mais tarde vai ser a China. São estas as pessoas a que queremos dar poder?”

 

Ammar olha para a Síria e o que vê é que “a coligação internacional que apoia Assad não pára de aumentar”. “São os iranianos, os russos, é a esquerda internacional que se opõe a uma intervenção ocidental, e agora é a extrema-direita internacional, também. É perturbador, a identidade global está absolutamente em crise. Depois da Primeira Guerra tivemos a Sociedade das Nações, depois da Segunda, as Nações Unidas, a Guerra Fria foi tão importante como as duas grandes guerras mas não vimos nenhuma instituição global a surgir depois de ter terminado para se ocupar da gestão de conflitos. Vimos o G20, que é uma boa ideia mas não chega.”

 

Do lado de lá do Atlântico, a Casa Branca parece confortável com esta nova forma de agir. “Eles estão a festejar, pensam que venceram, que obrigaram Assad a recuar e agora o Presidente Rohani [do Irão] quer aproximar-se, e eles estão aparentemente muito contentes.”

 

Às vezes, Ammar diz duvidar se a Administração Obama acredita que está tudo a correr bem ou quer apenas convencer disso o resto do mundo. “Não sei se acreditam nisto ou se querem que nós acreditemos, mas desconfio que acreditem. O Presidente Obama afastou as vozes dissidentes. Esse é o pior cenário.”

 

O mundo sem xerife

 

Há dois anos muita coisa poderia ter sido feita na Síria, defende Ammar. “Aquilo que Obama disse que queria fazer em Setembro, enviar um “choque”, um “ataque ao coração do regime”, se ele tivesse feito isso em 2011, quando a cidade de Homs estava cercada, bastava. Isso seria bater na mesa o suficiente, obrigar Assad a negociar, travar a loucura. Não entendo o que é que passou pela cabeça dos líderes mundiais para acharem que isso não seria possível.”

 

Ammar diz que não entende, mas na verdade entende ou, pelo menos, tem a sua teoria, “Obama não quis envolver-se na Síria em ano de eleições. As eleições passaram e ele ainda poderia ter feito isso, já não com tanta eficácia, já não para salvar tantas vidas. Só que o “Sr. Internacional” não é internacional. Acredita que pode só se envolver quando a segurança da América for directamente posta em causa. É um discurso que já ouvi, é o discurso de Israel e funciona para Israel, uma nação fortaleza, rodeada de inimigos, tão forte na sua região que não precisa de se envolver a não ser quando está em risco, isso chega. Não funciona para os EUA, no momento em que os EUA se afastam dão poder a radicais e esses radicais são todos antiamericanos.”

 

Agora, Ammar teme o pior, para a Síria, para a Europa, para o EUA e para toda a gente. “Vêm aí mais conflitos, há mais países que vão rebentar, o Sudão, por exemplo. Esta reacção, dizer “não é o nosso problema”, não resolve nada. Há limpezas étnicas a acontecerem noutras partes do mundo e a mensagem é “o xerife não está em casa”, na verdade não há xerife. O Presidente Obama diz que quer que a ONU seja o xerife mas não fez nada para reformar a ONU, não teve uma ideia”, acusa o activista.

 

“Isto não é a América a aprender uma lição e a querer ser mais moderada”, diz o sírio. “É a América a deixar um enorme vazio que a ONU não pode preencher, quem o vai fazer é gente perigosa, e isso é assustador para a segurança internacional.”

 

 

publico.pt

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