Afweyne, o pirata Somali, foi preso a pensar que ia fazer um filme

20/10/2013 22:58 - Modificado em 20/10/2013 23:07

pirata somaliMohamed Abdi Hassan, líder do grupo de piratas somalis que fez alguns dos mais audaciosos sequestros de navios, foi preso em Bruxelas. Mas agora diz que queria acabar com a pirataria no seu país.

 

Um dos maiores piratas da Somália, que terá ganho milhões de dólares com o resgate de superpetroleiros e um grande navio com armamento russo sequestrados ao largo deste Estado falhado, foi apanhado pela polícia belga há uma semana com um estratagema que parece filme: convenceram-no a abandonar a Somália e a ir até Bruxelas para ser consultor num documentário sobre a pirataria. Fazia todo o sentido para Mohamed Abdi Hassan, também conhecido como Afweyne – que quer dizer Boca Grande em somali -, um rico armador que anunciou a sua reforma em Janeiro, tem passaporte diplomático e cuja missão actual, garantia, era incentivar os jovens a abandonar a pirataria.

 

Um relatório de 2012 do Grupo de Monitorização da Somália das Nações Unidas não hesitava em classificar Mohamed Abdi Hassan como “um dos mais célebres e influentes líderes da Rede de Pirataria Hobyo-Harardheere”, que actua na zona central da costa da Somália. Mas Afweyne não era nenhum capitão Jack Sparrow, nem mesmo na sua versão moderna, com uma arma automática a tiracolo. É um empresário, tanto quanto se sabe conhecido pelos modos calmos.

 

“Afweyne trouxe uma nova sofisticação a este negócio. Conseguiu capital de risco para as operações de pirataria, tal como se estivesse a lançar uma operação em Wall Street”, escreveu Jay Bahadur, no livro The Pirates of Somalia – Inside Their Hidden World, lançado em 2011.

 

A polícia belga queria prendê-lo porque, em 2009, uma dúzia de piratas atacaram o navio belga Pompei, a cerca de 700 milhas da costa da Somália, e sequestraram a tripulação durante mais de 70 dias, até ser pago um resgate. Dois dos piratas que participaram na operação foram capturados e julgados na Bélgica, condenados a dez e nove anos de prisão. Mas a justiça de Bruxelas estava interessada no mandante, e não apenas nos piratas – que podem ser apenas desempregados que enveredam pela pirataria para ganhar a vida. “Muitas vezes, estas pessoas estão para além do alcance da justiça”, comentou o procurador Johan Delmulle.

 

Não foram revelados pormenores concretos sobre a operação, nem como prosseguirá o caso de Mohamed Abdi Hassan, que terá um passaporte diplomático, emitido pelo governo de transição da Somália, com conhecimento do próprio Presidente Sheik Sharif Ahmed. É o que dizia o relatório de 2012 do Grupo de Monitorização da Somália: “O documento declarava que Afweyne estava envolvido em actividades antipirataria, em nome do governo de transição”.

 

Reformado aos 60 anos

 

O próprio Mohamed Abdi Hassan anunciou, em Janeiro de 2013, que os seus dias de pirataria tinham terminado. “A partir de hoje deixo de estar envolvido em actividade de gangs. Tenho encorajado muitos dos meus colegas a renunciar à pirataria”, afirmou, a partir da cidade de Adado, na Somália central, onde tem o seu centro de operações. Aliás, o governador da cidade, Mohamed Tiiceey Aden, é um parceiro próximo: negociou muitos resgates de navios e viajou com ele para a Bélgica, onde foi também preso. Terá sido através de Tiiceey que a polícia belga chegou a Afweyne, diz o jornal britânico The Telegraph.

 

Aos 60 anos, estava pronto a enveredar por uma nova via, a dar o exemplo aos mais novos, declarou numa entrevista ao site de notícias sobre a região do Corno de África Sabahionline.com. “Quando tive a certeza de que podia tomar algumas medidas, o Governo deu-me permissão total para lutar contra pirataria”, disse Boca Grande.

 

Noutra passagem, nesta entrevista publicada a 8 de Outubro, menos de uma semana antes de ter sido preso no aeroporto de Bruxelas, contabilizava os seus sucessos. “Já persuadimos 1023 [jovens] a deixarem a pirataria. Alguns ficaram convencidos de que a pirataria não é uma coisa boa [e foram reintegrados nas suas comunidades] e outros [estão em processo de reabilitação] em campos.”

 

O próprio Presidente Sheik Ahmed – cuja autoridade sobre o território não vai além de Mogadíscio, a capital – confirmou que a atribuição de passaporte diplomático a Afweyne fez parte dos esforços de desmantelamento dos grupos de pirataria que afligiram o tráfego de petroleiros e navios de carga pelo Golfo de Áden.

 

Redução drástica

 

Levando em conta os resgates milionários exigidos pelos piratas para devolverem os navios que capturam e a subida dos prémios dos seguros pagos pelas empresas de navegação, as estimativas sobre quanto a pirataria somali terá custado à economia global oscilam entre 7000 milhões e 18.000 milhões de dólares – e este último valor é uma estimativa do Banco Mundial. Só em resgates a piratas somalis terão sido pagos, desde 2005, cerca de 385 milhões de dólares, calculava o Banco Mundial, num relatório publicado em Abril.

 

Mas a verdade é que a pirataria na Somália se reduziu drasticamente. O número de ataques atingiu o pico em 2011, para caírem 80% no ano seguinte. As operações navais dos Estados Unidos e da União Europeia na zona e o facto de se ter generalizado a prática nos navios que passam na zona de levarem guardas armados e outras medidas antiabordagem são avançadas como causas para esta queda acentuada no sucesso dos ataques dos piratas da Somália – este ano praticamente não há notícia de abordagens.

 

Houve também uma controversa tentativa (que não chegou a bom porto) para criar uma polícia marítima privada na região autónoma de Puntland, no Norte da Somália, conhecida por ter bases de piratas, com financiamento dos Emirados Árabes Unidos e uso de empresas de segurança privada, sul-africanas e americanas.

 

Os piratas somalis dividiam-se em quatro grandes grupos, organizados de forma geográfica e por uma lógica de clãs, segundo uma classificação do site Global Security. Muitos destes grupos estão interligados com a milícia islâmica Al-Shabab, que actua em terra.

 

A Guarda Costeira Nacional de Voluntários, comandada por Garaad Mohamed, tem sede em Kismayu, na costa Sul, e especializou-se em interceptar navios pequenos e embarcações de pesca. O grupo Marka, comandado pelo sheik Yusuf Mohamed Siad, é composto por vários outros grupos, numa organização mais dispersa, e actua ao largo da cidade de Marka, que fica um pouco a sul de Mogadíscio. Uma terceira formação opera ao largo de Puntland, tem por origem pescadores e é denominada Grupo de Puntland. O grupo mais poderoso e melhor organizado era o dos Marines Somalis, de Afweyne, com uma estrutura de tipo militar que incluía um almirante, um vice-almirante e um responsável pelas operações financeiras, dizia um artigo no Global Security.

 

Modelo de negócio

 

Num país sem unidade política nem economia, a pirataria tornou-se uma actividade económica extremamente bem organizada e estratificada, explica Jay Bahadur no Livro The Pirates of Somalia. Cada célula de piratas tinha como que operários especializados em atacar os navios, intérpretes, contabilistas e cozinheiros, os seus próprios fornecedores de khat (uma planta que se masca e se torna viciante, cujas folhas são importadas do Quénia e da Etiópia). Os piratas propriamente ditos não ganham fortunas – os que estão no escalão mais baixo da hierarquia recebem apenas o suficiente para sobreviver.

 

Afweyne notabilizou-se porque os seus homens capturaram navios como o superpetroleiro saudita Sirius Star, do tamanho de um porta-aviões, carregado com dois milhões de barris de crude, que foi abordado em 2008 a 450 milhas a sul do porto de Mombassa, no Quénia. O resgate, pago após dois meses, terá sido no valor de três milhões de dólares, e foi deixado cair de pára-quedas no convés do navio por um helicóptero.

 

Outra conquista que tornou Afweyne e o seu modelo de negócio famosos foi a captura, pouco tempo depois, do navio ucraniano Faina, que transportava 33 tanques T72 do tempo da União Soviética que tinham sido renovados e outro armamento russo, com destino ao Quénia. O sequestro durou 134 dias, até ser pago um resgate também na ordem dos três milhões de dólares. O capitão do Faina morreu de ataque cardíaco.

 

Empresário justiceiro

 

Afweyne, no entanto, renega uma visão do seu passado que o encare simplesmente como um pirata. Dir-se-ia que prefere ver-se como um justiceiro que fez justiça pelas próprias mãos, quando os grandes navios pesqueiros estrangeiros começaram a chegar às águas do seu país e a roubar descaradamente o peixe, pelo que explicou ao site de notícias Sabahionline.com.

 

“Eu era proprietário de uma grande empresa de pesca e tinha uma produção significativa. Mas quando os navios estrangeiros nos atacaram e já não pudemos ir para o mar ou ganhar a vida, decidimos tomar medidas para nos protegermos, o que era uma forma legítima de autodefesa”, disse na entrevista de 8 de Outubro. “Lutámos contra os que estavam a destruir o mar e a impedir-nos de o usar. Por isso, eu não era um raptor, era um líder desde movimento legítimo de autodefesa. Organizámos a juventude da região com o objectivo de nos protegermos e não para fazer raptos”.

 

Qual o sucesso destes argumentos na justiça belga – e até com a dinamarquesa, que poderá também estar interessada em julgá-lo, devido ao sequestro do navio Danica White – é o que se verá nos próximos dias.

  1. Aprofiss

    Bem feito que foi preso, mais um idiota criminoso atraz das grades.

Os comentários estão fechados.

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