Peritos em armas químicas chegam à Síria para uma missão impossível

1/10/2013 23:29 - Modificado em 1/10/2013 23:29
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guerra-siriaNunca uma missão para eliminar os arsenais químicos de um país decorreu em plena guerra, nem teve um prazo tão curto. Observatório dos Direitos Humanos Sírio diz que conflito fez mais de 115 mil mortos

 

Os inspectores da Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPAQ) estão desde esta terça-feira na Síria para aquela que é a mais arriscada e difícil missão que já desempenharam: eliminar o arsenal sírio em apenas nove meses, enquanto a guerra civil desmorona o país. E, ainda que a tarefa se revele afinal possível, em nada mudará o desenrolar de um conflito que, segundo um último balanço, fez mais de 115 mil mortos.

 

A coluna de jipes brancos entrou na Síria pela fronteira libanesa, quatro dias depois de aprovada a resolução que selou o acordo entre a Rússia e os Estados Unidos — Bashar al-Assad entregará o arsenal que nunca admitiu ter, evitando a ofensiva prometida pelos americanos em retaliação contra os ataques de 21 de Agosto. A bordo seguia apenas guarda avançada da missão, com o objectivo de planear a logística das inspecções e acertar detalhes sobre a lista entregue por Damasco à OPAQ. O trabalho de terreno só começa na próxima semana, com a chegada de mais inspectores, e o calendário é apertado.

 

A primeira tarefa será inspeccionar todos os locais associados ao programa de armas químicos — unidades de pesquisa, fabrico, armazenamento —, determinando os agentes que aí existem, em que condições e como podem ser eliminados. O passo seguinte será selar as instalações e destruir os equipamentos usados no fabrico das armas químicas, bem como as munições usadas para as dispersar — um trabalho simples que pode ser feito retirando componentes ou injectando cimento nos mecanismos.

 

O trabalho tem de estar concluído até ao final do mês, o que além de obrigar os inspectores a trabalhar depressa os forçará a correr riscos. O ministro dos Negócios sírio, Walid Muallem, disse que sete das 19 unidades declaradas pelo país estão situadas em zonas de combates, mas peritos em desarmamento acreditam que ao todo serão mais de 45 locais, situados em vários pontos do país.

 

Mas esta é apenas a primeira parte do trabalho. A OPAQ terá depois de definir um plano para a eliminar um arsenal que, segundo estimativas de vários países (a lista entregue pela Síria vai permanecer secreta), ronda as mil toneladas, incluindo 300 mil quilos de gás mostarda e grandes quantidades de compostos que, quando misturados, dão origem a agentes neurotóxicos como o sarin. Existem vários métodos de eliminação e a organização vai pôr em prática a experiência adquirida no Iraque. Mas além de ter um calendário apertado (Trípoli demorou mais de uma década a livrar-se de um arsenal mais pequeno), nunca tal tarefa foi tentada em plena guerra.

 

“O que posso dizer com certeza é que não vamos trabalhar da forma habitual”, admitiu à BBC um porta-voz da OPAQ. O Presidente sírio assegurou que vai respeitar a resolução da ONU, mas para que os peritos possam trabalhar será necessário acordar tréguas temporárias — um compromisso não assumido que nem o Exército, nem os rebeldes assumiram e que, a não acontecer, impossibilitará a destruição das armas ou o seu transporte para zonas seguras.

 

Na mesma altura em que os inspectores atravessavam a fronteira, o Observatório Sírio dos Direitos Humanos, uma ONG que recolhe informações do terreno, dizia ter contabilizado já mais de 115 mil mortos desde o início da revolta contra Assad, em Março de 2011, dos quais 41 mil civis, incluindo seis mil crianças.

 

Balanço que reforça os argumentos da oposição, para quem o acordo na ONU (e a suspensão do ataque americano) “é uma vergonha e um escândalo”. “A comunidade internacional fica com as armas e esquece os cem mil mortos do conflito”, disse à AFP o coronel Kassem Saaedine, desertor do Exército sírio, acusando a comunidade internacional de, com esta resolução, voltar a olhar para Assad como “alguém respeitável”.

 

 

publico.pt

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