PARTE III (continuação) REGIONALIZAÇÃO

4/06/2012 00:25 - Modificado em 4/06/2012 00:25
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A ambição do homem tem sido compreender a criação do coletivo de que ele (homem) é componente. Qualquer ausência no seu mecanismo logístico deprime-o como uma deposição dosapiens, que tem, como dizia Sorokin, o horror of emptiness. E quanto mais vai subindo no conhecimento percebe o afastamento dos horizontes, a multiplicação dos motivos sedutores, o mistério imóvel das origens.

Dentro do conjunto do arquipélago, com formas que nem sempre se atinam com as suas exatas expressões, as microculturas explicam a presença dominadora do homem na terra e mesmo sua curiosidade étnica, entendendo-se etnia como sendo coletividade de indivíduos que se diferenciam por sua especificidade sociocultural, refletida principalmente na língua, religião e maneiras de agir ou grupo étnico,para alguns autores, a etnia pressupõe uma base biológica, podendo ser definida por uma raça, uma cultura ou ambas; o termo é evitado por parte da antropologia atual, por não haver recebido conceituação precisa. Em cada momento funcional uma delas poderá responder a quem lhe pergunte porque não teria outra maneira de ação: – Sint ut sunt, aut non sint. Essa frase, do padre Lourenço Ricci, o geral dos jesuítas, quando lhe sugeriram reforma para a Companhia, dirá do elemento imutável que existe no âmago das entidades que resistem ao tempo e às tentações da interpretação padronizante…

Os grupos humanos em Cabo Verde não poderiam ter uma forma diversa da que se conhece, porque existe nada menos do que 80% dos seus vestígios que são reais. Não se pode calcular o que se perdeu. Reconstrói-se o edifício com as ruinas incompletas que restaram no desgaste do tempo, mas com o cuidado de não se negarem os porquês, os comos e os quandos.

As experiências anteriores, se houve, não se transmitiram e assim, cada menino ou menina faz o seu curriculum de aprendizagem na Universidade do Quotidiano. A astronáutica não modificará a mentalidade dos astronautas…

Em Cabo Verde se conhece o grupo e não o tipo, a família e não o indivíduo quando se trata de estudo etnográfico, principal e nomeadamente na ilha do Fogo, quando alguém, atualmente, diz: – “Eu sou da família Barbosa”, olhando para a plebe lá em baixo e se achando senhor(a) da verdade e acionista majoritário(a) da razão e da verdade, possuidor(a) de um simples diplominha de um curso de matemática que, seria reprovado(a) na minha primeira aula do primeiro ano da faculdade… Houve época que tudo o que saía da boca de um membro da família Barbosa, no Fogo, era lei irrecorrível… Esse tempo passou e a realidade é outra… ! ! ! ! !

O caboverdiano viu o grupo confuso e natural vendendo os monstros, o frio, a noite, o pavor; e marchando obstinadamente para nós, seus descendentes, que não tiveram medo de ir além da mediocridade de uma limitada mente de uma ameba paralítica. Para que aqueles que avançaram além do “mediocritasfamiliae dixit’ e que puderam, como eu, atravessar essa quarta dimensão de 652 anos, devemos nos reunir em grupos, com técnicas possivelmente coletivas, organizados em face da necessidade imediata de puxar o freio (travão) de mão dos oportunistas.

As organizações, grupos, o atual Estado caboverdiano, (des)governado com o rumo não se sabe para onde, formas instintivas, onde a coesão afronta o atrito dos tempos, é a tendência legítima para tomar os modos permanentes, suscetíveis de autodefesa e potencialidade. Assim, sob a forma de uma solução através de um “nome de família”, portanto, morfológica, alguns grupos ilhéus chegaram até os dias atuais. Escolheram a fórmula de uma solução morfológica de hipotética transmissão genética até os contemporâneos viventes, que comem sardinha e arrotam caviar, pensando como seus antepassados que “ F… falou e disse; disse edizeu’ , está dizido’, como verberava um Barbosa (Eduardo Pereira), elemento espúrio da família porque ilegítimo, de quem cheguei a escutar esta frase.Embora ilegítimo, a família o adulava porque, muito inteligente e excelente comerciante, era rico. Devem contar que existem genes recessivos, aqueles que pulam gerações e se instalam em um certo descendente. Esses que hoje apoiam a macrocefalia centralizadora escolheram a forma capaz de salvá-los da morte, quando outras famílias quantitativamente mais fortes, foram desaparecendo pela estrada do tempo. A voz poderosa e obscura do instinto alertava-os do perigo da solidão. Alguns caboverdianos verticais ainda vivem unidos para não perecerem… Unidos no grupo inicial da família, dos amigos (como o John Santos, em Santo Antão e o Chico, em Portugal), dos sócios, dos colegas dos bancos do liceu, dos companheiros, dos conterrâneos, dos nacionais legítimos, dos aliados. Vae sole  – proclamava o rei Salomão, que tinha autoridade prática para repelir a visão do solitário.

Em Cabo Verde houve uma sequência social porque o homem agrupou-se, criou a linguagem própria regional que é o mais alto índice da indispensabilidade do convívio.

Nas ilhas onde existe o ciclo regular das estações (raro) a natureza expõe seus recursos  para defender o prolongamento vital.

Malinowski criou a Theory of Needs, teoria das necessidades, provocando cada uma a cultural response respectiva. Noutro ângulo de raciocínio, Toynbee fundamenta a doutrina sobre as civilizações na eficácia, na prontidão das respostas úteis dadas pela minoria dirigente e responsável à maioria carente e requerente, simplesmente requerente porque não se encontram alçados a semideuses que se encontram, no Olimpo da governação central. O desequilíbrio dessas correlações explica a falência, diminuição, enfraquecimento e morte de um status quo dominante. Já que falei de Malinowski, pode-se determinar que cada uma das necessidades determina uma ação defensiva (um irretratável e insofismável princípio newtoniano da física) e protetora correspondente, completa e vital.

Voltando, quando Spengler construiu sua doutrina, sobre o ciclo ascensional e decrescente dos grupos sociais, fixou justamente no misterioso potencial criador da força vitoriosa, que é a nossa: – “Soncente ê Soncente ! Ê câ badiu !”

Para Terenciano Mauro, os livros, os povos e as populações regionais tinham destinos, habent sua fata, ou seja, um trajeto que esgotado no tempo leva à inutilização funcional.

Bem modestamente, e olhando a documentação material, a etnografia supõe que o homem, indeformável na sua essência anímica, vence o tempo na forma assumida coletivamente, respondendo o grupo à necessidade emergente no espaço social.

É imperioso que se esclareça à Sra. Arminda Gomes:

– O comunismo é uma etapa utópica do socialismo. Portanto, não existe. Sugiro

que estude Marx e Engels um pouquinho mais.

– Não é porque alguém, nos primórdios de 1975, tenha tido uma opinião no que

respeita ao PAIGCV a mantenha hoje, em pleno século XXI, depois de analisar os descalabros que esse partido tenha cometido e continua cometendo, enganando tudo e a rodos;

– Não é razão porque alguém natural de Cabo Verde ascendeu ao grau de oficial

superior do exército português que ele               tenha sido colaboracionista com

a mentalidade do E.F.U. Ele foi, sim, um dos capitães que fizeram a

Revolução dos Cravos que hoje, lhe dá, minha senhora, a liberdade de

falar, liberdade muito mal aproveitada pelos extremistas stalinistas

portugueses, de má memória, que já morreram e não sabem…

 

Disse, no início que faria uma pergunta.

Após a leitura deste artigo, pergunto:

– A centralização macrocefálica de Cabo Verde, como pretendem os atuais governantes,vale a pena ?

Com a consciência na mão, afirmo: – O que o caboverdiano hoje mais necessita é de ter certeza que terá CAFÉ, ALMOÇO e JANTAR e todas as suas tradições e culturas regionais, não apenas respeitadas, como também preservadas. Respeitosos cumprimentos.     

 

 

V.Koening

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