PARTE II (continuação) REGIONALIZAÇÃO

29/05/2012 00:52 - Modificado em 29/05/2012 00:52

Entender-se que o diabo azul, que pode habitar esse meio, é a legítima defesa contra modificações espúrias, mal-intencionadas, não explicadas e sorrateiras. Uma convergência mental num grupo social é corresponsável direto do progresso material e mesmo as consagrações de fórmulas religiosas, filosóficas e literárias são soluções prévias para a continuidade da inércia saborosa. Até meados da década de 1970, produções mentais só existiram, em Cabo Verde, na ilha de S. Vicente, porque, como pensava o saudoso professor Augusto Santos (Pirico), “a preguiça amamenta muita virtude”, a ilha de S. Tiago era exclusivamente residência do governador da colônia, um centro burocrático.

Interessa precipuamente à etnografia uma apresentação dos tipos sociais iniciadores da vida organizada em conjunto. O ser humano forma sucessiva e distintamente determinadas categorias e essas categorias estabelecem funções de subsistência e estabilidade grupais, numa ligação quase que fraternal.

Começa-se pela determinação desses grupos. Segundo ensinava Marcel Mauss “Deuxmoyensexistentpourdéterminerlegroupement: l’habitat, la langue.” Apesar das restrições que ele próprio apresentou, estava convencido da suficiência. “L’emploi de cesdeuxmoyenspeutfournir des déterminationssuffisantes”. Os critérios geográfico e linguístico não respondem pela identificação morfológica. Foi a grande argumentação de Pitirim Sorokin aos sistemas de Danilevski, Splengr e Toynbee.[1]

Um grupo linguístico ou dialectal é social e explica funcionalmente um complexo cultural. Os que falavam latim e grego, os que falavam árabe, alemão, inglês, espanhol jamais possuíram unidades específicas coincidentes nas áreas de uso linguístico, assim como aqueles que sempre habitaram S. Vicente mantiveram e mantêm o mesmo linguajar, completa fonética e ideologicamente diferente do da Ilha de S. Tiago. A população da ilha de S. Vicente sempre foi ímpar… Os grupos sociais de S. Vicente não tomam a forma com que vencem a quarta dimensão como uma consequência do habitat ou da língua. Conceitua-se, neste escrito, a quarta dimensãocomo sendo algo frequentemente descrito considerando-se suas implicações físicas, querendo dizer, que se conhecem as três dimensões onde existem comprimento (ou profundidade), largura e altura. A quarta dimensão (espacial) é ortogonal às outras três dimensões espaciaise a quarta dimensão também chamada de dimensão temporalé tratada de forma equivalente à das três dimensões espaciais nas teorias relativísticas. A ilha de S. Vicente, o Sudão, o litoral do Mediterrâneo europeu e africano, a parte insular, a savana, a planície, a montanha, a estepe, o próprio deserto de areia ou de gelo não constituem moldes ajustadores dos grupos humanos em aspetos rígidos, indeformáveis e característicos. Sob a pressão dos mesmos fatores mesológicos (prefiro usar mesológico a ecológico, vocábulo muito vulgarizado) a massa humana diversifica-se e, do governo à alimentação, das atividades econômicas às concepções religiosas, apresenta modalidades inconfundíveis e desnorteantes. Semelhantemente deduz-se na linguagem expondo formações e decorrências diferenciadas entre árabes, ingleses, portugueses, espanhóis, sem que a unidade idiomática tenha agido como aproximadora e unificadora sensível, permanente, insofismável; pelo contrário afasta grandemente. Embora haja contemporaneidade os limites da penetração aculturativa são ainda ignorados totalmente. Em Cabo Verde, a presença modeladora de um espírito organizador pode criar um conjunto com macrocefalia administrativa central, estendendo seus domínios sobre as outras ilhas povoadas, mesmo fazendo desaparecer, por algum tempo, a força catalítica do nome, é um liame masjamais será uma permanente. Só será permanente se se mantiver o status quo ora dominante. Porém, é de se pressupor que a hipotética perenidade motivadora, embora do desejo daqueles que se encontram no Olimpo, é impossível existir.

A verdade é que, ante a multidão de estudos, sugestões, esquemas, engendramento de teoriasobtusas produzidas por “…velhacos para enganar ingênuos” na expressão deRudyard Kippling(desculpe citar este mais reacionário que a própria reação), numa tendência absurda de fixação de fisionomias coletivas, não se pode precisar quais os elementos decisivos para uma coesão perdurável e manutenção de uma expressão morfológica mais resistente, tanto nos seres como nas sociedades. Não existe uma teoria, doutrina, sistema prestigiado por autoridade magistral que não possua margem de exceções e essas poderiam anteriormente ter constituído a regra geral formadora e, se não aconteceu, é caso para se pensar que não poderá vir a ser benéfica e, pelo que se sabe, em Cabo Verde existem muitos ‘magister dixitda mediocridade’‘no trono’ e/ou a eles adstritos, não ‘avis rara’ quando se sofre de microcefalia insuladamente generalizada, aqueles que se julgam donos da verdade e senhores absolutos da razão …

Deve-se dirigir obstinadamente para a verificação normal de uma incapacidade generalizadora no estudo do conjunto, grupo por grupo, como também estar atento a um exame de peculiaridades emergentes e distintas pela aceitação da entidade estudada, nunca de antemão previstas e escolhidas pela argúcia dos que se encontram entronizados. É possível conduzir povos mas não explicá-los.

Se nasceu uma maneira de viver e de pensar, em culturas exercidas pelos grupos organizados, houve uma força, um núcleo inicial, uma convergência de elementos que determinou a coordenada criadora, lançada no plano do desenvolvimento. Quais seriam esses fatores de criatividade, como diz Sorokin ?

 

a)      O gênio supra-sensorial e supra-racional, gênio criador, “herança afortunada”;

b)      Necessidade social;

c)       Fecundação cruzada das correntes culturais;

d)      Liberdade cultural;

e)      O azar, acaso, “fator residual de uma situação acidental favorável ou conjunto de circunstâncias que sugiram uma ideia.”

Sorokin conclui:

 

Cada um desses fatores tomados separadamente é insuficiente para determinar um ato criador; tomados em conjunto podem explicar uma grande parte da criatividade dos indivíduos ou dos grupos e justificar porque alguns grupos foram capazes de criar sistemas culturais, enquanto muitos outros permanecem no nível do material etnográfico.

 

Certamente com o auxílio total da pesquisa, surgem dados concretos para o levantamento das organizações humanas no passado não muito remoto, inclusive imediatamente posterior ao achamento de Cabo Verde. Não serão dados definitivos, mas suficientes para uma visão que novas descobertas modificarão no plano da evidência. Os restos materiais que resistiram e vieram até os dias atuais como testemunhas de tempos distantes, não significam a totalidade e nem mesmo porcentagem vultuosa dos vestígios reais de como os primeiros residentes viviam e dos processos indispensáveis para progredir e não se deixarem contaminar por culturas espúrias sem se insular ou se fechar numa concha. Os salvados existentes possibilitam uma ideia da vida mas não a imagem total dessa vida, discutindo finalidades tipológicas partindo do salvado material existente.  Então, como chegar às deduções do social, dos liames e obrigatoriedades do convívio ? É impossível a ausência desses elementos se não se ficar sabendo como realmente eram ?[2]

Possível é deduzir da apreciação epistemológica exposta, reconhecíveis pela insistência de determinadas unidades, assinaladas pelo estilo ou feição funcional, não compreendem obrigatoriamente grupos humanos vizinhos ou do mesmo grupo linguístico e dialetal, e não é possível explicar a predominância de um elemento na caracterização porque essa unidade pode ser mutável, recomposta ou substituída pela necessidade social ou liberdade cultural, leis poderosas da criatividade.

Há que se voltar a Sorokin quando severamente ele critica aquilo que denominou “erro básico, erro fatal, a confusão dos sistemas sociais (grupos organizados) com os sistemas culturais, na acepção extensiva e específica dessas entidades, precisamente o que aconteceu na ocupação social da ilha de S. Vicente.

Essa indeterminação impossibilitaria qualquer sistemática na história das culturas locais que não podem independer do tempo e do espaço para sua realização útil essencial. Mas a implacável análise de Sorokin, notadamente a Spengler e a Toynbee, que se encaixa como uma luva a Cabo Verde, evidencia a dificuldade de fixar as constantes típicas para uma possível formulação modificacional.

A divisão dos habitantes de uma região no interior das ilhas em pastores ou agricultores é uma convenção como tantíssimas outras tentando amanhecer a noite da dúvida. Satisfará a simples curiosidade mas não corresponde à veracidade positiva pela ausência de caracterização expressiva e contínua. Não restam elementos probantes ou que tenha força de provae que é útil para tomada de decisão ou para auxiliar no decisum de diferenciações entre as categorias classificatórias. A arqueologia pode isolar, incomunicar “temporaryphases in what was really a continuousprocess”. O conjunto funcional dessas fases quando interruptas daria outro aspecto à interpretação contemporânea.

Pastores e agricultores teriam vários padrões comuns, insofismavelmente pertencentes às classes e não privativos de uma única. Mas ‘las cosas hay que hacerlas, mal, pero hacerlascomo dizia Sarmiento. O essencial é riscar o fósforo no escuro. Um dia virá a luz maior. Pela correlação da energia e do raciocínio, a cada melhoria tipológica ou factual devia corresponder um outro acesso na aptidão criadora, uma promoção no plano da prova experimental vitoriosa, através do raciocínio indutivo porque o dedutivo a própria experiência social já demonstrara a ineficácia.

Ensinava Anaxágoras que a inteligência nasceu da mão, e a mão surpreendentemente já se exercitara. A inteligência é uma articulação de elementos íntimos, instinto de ligação, interligare, ligar interiormente, reunir, unir, unificar para uma ação. Mas nem sempre a interação humana responde ao formalismo lógico. Há que se proceder wittgensteiniamente enfocando uma lógica filosófica ou uma filosofia lógica.

Há comprovantes da inteligência do ‘sampadjudu de Soncente’, homem no campo material, ergológico, devendo ter outras atividades e outras realizações que seriam decorrências da mentalidade em fase ascensional. Se os grupos humanos mindelensestomaram atitudes compatíveis com as necessidades da resistência ao tempo, como os objetos às finalidades do uso, nem todos os elementos componentes dos vários aglomerados humanos insulares essenciais mantêm a relativa harmonia equidistante para uma centralização administrativa macrocéfala. Essa disparidade no conjunto explicar-se-ia pelo exercício irregular, pela predileção genérica a determinadas atividades com o subsequente abandono a outras, prática maquinal ou profissionalismo desinteressado de aperfeiçoamento pelo rendimento julgado suficiente, ignorância de modelos mais altos. E no setor religioso as interdições vedam a colaboração renovadora, apenas sensível no movimento hermenêutico, usando a técnica que tem por objeto a interpretação dos textos, do sentido das palavras mesmo sob o ponto de vista do valor simbólico, sendo, portanto, aquele conjunto de regras e princípios usados na interpretação do texto, ortodoxo e regular.

Tratando-se de Cabo Verde não há,‘evidentíssimamente’ – como dizia o saudoso Prof. António Aurélio Gonçalves – correlação harmônica no adiantamento ou modificação, entre parte e todo cultural, sob o clima da vivência mais ou menos constante.

Tomando como referencial histórico e não geográfico, comparativamente, não pode vir a suceder com a regionalização em Cabo Verde um consequente insulamento – já que isolamento efetivamente existe com a ilha de S. Vicente –,o que acontecera em 1776 com o capitão James Cook. Ele admirava na Nova Zelândia o i-pah, uma aldeia fortificada com um sistema de fossos, parapeitos, trincheiras, plataformas realmente inexpugnável. O capitão James Cook observava:

“… é muito surpreendente que a indústria e o cuidado que empregaram em construir, quase sem instrumentos, praças tão próprias para a defesa não lhes fizessem inventar, pela mesma razão, uma só arma de tiro, a não ser a lança, arrojada com a mão. Não conhecem um arco para ajuda-los a vibrar o dardo, nem a funda para atirar pedras, o que é tanto mais espantoso quanto a invenção das fundas, dos arcos e das flechas é muito mais simples do que a das obras que esses povos constroem e que se encontra de mais a mais essas duas armas em quase todos os países de mundo, nas nações mais selvagens.”

 

Continua na Parte III …



[1]Sorokim, Pitirim A. – LasFilosofíasSociales de Nuestra Época de Crisis, trad. de Eloy Terrón, 1956.

2Spengler, Oswald. – La Decadencia de Ocidente, Busqueio de uma Morfologia de la História Universal, trad. de

Manuel G. Morente, 10ª ed, Madrid, 1958.

3Toynbee, Arnold. – Um Estudo de História, condensação dos volumes 1/2.

[2]Sorokin, A. Pitrim – Society, Culture and Personality: TheirSrtucture and Dynamics.  New York, 1947.

Ibidem                     – Social and Cultural Dynamics, IV, New York, 1941.

 

 

V.Koening

  1. Mário Lopes

    Crede, pal senal santa cruz, home de Deus

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