Comportamento: vive atrás de um máscara?

29/07/2013 10:31 - Modificado em 29/07/2013 10:31
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viverHá um intervalo cada vez maior entre aquilo que somos e aquilo que mostramos ao mundo. Estamos a trair-nos ou simplesmente a sobreviver? Fizemos uma viagem àquilo que escondemos dos outros… e de nós próprios.A primeira vez que pensei no tema estava em Londres com um amigo, e entrámos numa loja. Vi-o dar um salto como se tivesse levado uma bofetada e sair dali a correr. Perguntei-lhe o que é que o afectara daquela maneira. “A empregada”, gaguejou ele. Tentei lembrar-me da cara dela, mas não me vinha nada de extraordinário à lembrança. Seria um caso fulminante de amor à primeira vista? Se calhar reconheceu-a de uma vida passada. Ele atirador de facas e ela assistente? Longe de fantasias, já ele explicava: “O sorriso dela! Estava séria, e quando entrámos abriu-se num sorriso totalmente artificial!”

Tive vontade de lhe dizer que me chocava muito mais o ar de caixão à cova com que me recebiam em algumas lojas portuguesas, e que, a dizer a verdade, preferia um sorriso artificial a umas trombas genuínas… Pior: preferia isso em todas as ocasiões da vida. Mas, afinal, as máscaras que colamos à cara são boas ou más? E servem para quê? Claro que mais grave do que as máscaras profissionais são as máscaras com que protegemos os nossos sentimentos mais profundos. Quando comecei a investigar, percebi que o sorriso artificial não era tão raro como isso, e na maior parte das vezes era bastante menos inócuo do que a simpatia estudada de uma assistente de circo – desculpem, de loja.

Tudo para ser aceite

“Sou doutorada em máscaras”, afirma Joana Marques, 41 anos. Viveu dez anos de um casamento de fachada, com problemas que era obrigada a esconder das pessoas que mais amava. “O meu pai estava doente e não ia aguentar a minha separação. O meu filho era muito sensível, e eu não queria por nada que ele sofresse.”

Todos nós, em maior ou menor grau, somos diferentes conforme a pessoa com quem estamos, mas até que ponto é que nos traímos na necessidade de nos protegermos dos outros? Escondemo-nos por medo, por defesa, por integração? Por que achamos que a outra pessoa não aguenta o peso da nossa personalidade, com todos os seus defeitos? É o medo da rejeição que está na base?

“Podemos ver as máscaras em termos de rejeição, mas eu vejo-as mais como uma arma para melhorar a aceitação do outro”, defende o psicólogo Quintino Aires. “Eu preciso que me aceitem para me sentir bem.”

Então, e se fosse ao contrário? Se disséssemos e fizéssemos tudo o que queríamos, se fôssemos permanentemente iguais a nós próprias, seríamos mais libertas? “Ao contrário: as pessoas muito rígidas, que se comportam da mesma maneira com toda a gente, essas são as mais aflitas”, afirma Quintino Aires. “É tão angustiante a avaliação que os outros possam fazer, que funcionam como se a opinião deles não lhes fosse necessária. E isso também é uma máscara. As que se gabam de ‘dizer tudo’ nunca dizem tudo. O que estão a dizer é que têm consciência de que são despropositadas muitas vezes. Porque depois, quando lhes é conveniente, que bem que elas escondem!”

Almas estilhaçadas

Quer dizer: é raro sermos nós próprios… “É. Mas isso não só é normal como é saudável”, defende o psicólogo. “Ter em conta a opinião do outro é um sinal de inteligência emocional. Nós não nascemos conscientes dos outros, isso resulta de um desenvolvimento. Em certa fase, tomamos consciên-

cia do outro. Não é o outro físico, é o outro psicológico. Percebemos que tem vontades, desejos, quereres.”

Então começamos a querer agradar. “Adoptamos as máscaras daqueles que mais valorizamos: a mãe e o pai. A menina quer andar de saltos altos, o rapaz diz que é do Benfica. E este é o primeiro ensaio verdadeiro de criação de máscaras, para sobreviver dentro da tribo. Até se chama a fase da teatralização.”

Depois, claro, a coisa complica-se: aos nove anos percebemos que, além de agradar ao pai e à mãe, temos de agradar também à tribo dos amigos. E como é que se incorpora muita gente ao mesmo tempo? Começa o extenuante processo de agradar a gregos e troianos, que muitas vezes se prolonga pela vida adulta.

Mas quando é que a diferença entre aquilo que somos e aquilo que mostramos deixa de ser saudável e começa a ser tóxica para nós? “Quando, por qualquer razão, funcionamos contra a nossa consciência. Mas, para isso, é preciso ter acesso a essa consciência.”

E quando não temos? “Aí não é traição… É como se o actor não existisse, só a personagem. Há quem funcione só com personagens, quem não se conheça. São pessoas que, quando se pede para se definirem, descrevem comportamentos, e não feitios. Não têm uma representação de si próprias, têm tendência para se colar àquilo que esperam delas.”

As máscaras ajuda

“Vivo o dia-a-dia angustiada com o que não consigo dizer”, conta Ana Paula, 38 anos. “Passo o tempo a pensar no que gostava de dizer ao meu chefe, ao meu marido, até ao meu filho, e não consigo!”

As pessoas vivem presas nas suas máscaras? “Eu diria que estes não são actores”, explica Quintino Aires. “Se o fossem, não tinham medo de retirar a máscara.” E como é que eu posso, não sendo anti-social, não me trair? “Tendo consciência de si própria. Assim que consegue definir-se, tem mais segurança e capacidade para dizer aos outros aquilo que pensa. “O problema nem é tanto que a pessoa se revolta contra a máscara. O que nós não gostamos é que nos limitem, e confundimos isso com aquilo que nós somos, em oposição às nossas máscaras.”

Muitas vezes estamos contra as máscaras, mas são elas que nos orientam. “Eu entro num restaurante tradicional, peço a lista, escolho e pago. Se for pela primeira vez ao McDonald’s, fico perdido, porque não sei qual é o meu papel naquela ‘peça’”, exemplifica o psicólogo. Ou seja, as máscaras têm o importantíssimo papel de poupar trabalho ao cérebro. De outra maneira, estaríamos sempre a ver como é que nos tínhamos de comportar. O problema é quando não evoluímos para lá delas.

“Ontem, um jovem começou a implicar com a minha gravata”, conta. “É muito formal, dizia ele, eu nem o conheço a si… Eu dizia-lhe que era exactamente por isso. E qual é a tua maneira de vestir?, perguntei-lhe. Ele respondeu: ‘Eu visto-me como escolho.’ Mas ele não escolhia a roupa: ele vestia como o grupo dos ‘hard’. O grupo é que definiu a maneira como ele se veste.”

Mesmo quando nos cremos fora de máscaras, somos sempre recuperados para dentro de uma definição colectiva.

Sabe quem é?

Então vamos lá à parte difícil: como é que podemos descobrir o nosso eu? “Perguntando aos outros quem nós somos, e tendo coragem para ouvir a resposta”, defende Quintino Aires. “Nós só vemos o que nos disseram que estava lá. E é a partir dessa definição que nos construímos relacionalmente.” E se os outros forem idiotas? “Destroem-nos. Por isso devemos perguntar a muita gente antes de tirar conclusões.”

E se as respostas forem contraditórias? “Tem de perguntar a mais gente. Se for perguntando, vai perceber que há traços comuns.” E depois o que é que fazemos com aquilo? “Criamos o dicionário de nós próprios, ao qual recorremos quando é preciso.” O que é que fazemos ao que não nos agrada? “Reformulamos, melhoramos, ou então aceitamos.”

Quando a pessoa já está confortável com esta auto-reportagem, o psicólogo pede-lhe que imagine que está em frente dela própria e que se descreva. Medito nisto por momentos. Duvido que fosse capaz. Acho que desatava a rir.

Como acaba esta história de autodescoberta? “Aí é que a pessoa vai ser um actor que coincide com a máscara”, conclui Quintino Aires. “A máscara que usa foi definida pelo actor que é.” O que não significa, portanto, o fim das máscaras, mas o princípio da consciência.

 

 

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