Notche

30/07/2013 00:11 - Modificado em 30/07/2013 00:27

Noche1Com os seus pés descalços, a roupa de todos os dias, o cabelo grisalho, o andar encurvado. Assim deambula todos os dias, Eugénio Costa (Notche), pelas ruas do Mindelo. “Desprezado” pela aparente condição de mendigo, esconde-se por trás da bebida “para que os dias pareçam mais curtos”, para “esquecer o sofrimento passado” e “sobreviver”.

Dono de uma voz potente e singular canta a morna com alma e não lhe faltam palavras quando o assunto se vira para este estilo musical. “A morna é o meu sentimento, a morna é a minha alegria, é tudo para mim. A morna é a minha mãe, a morna é a minha filha. Quando canto, primeiro amanso o meu coração, porque a morna primeiro vem da mente, sai pela boca e só depois atinge o coração. A morna é um sentimento e já não existe igual no mundo”, explica com lágrimas nos olhos. Um discurso sentido sobre a música que diz pertencer-lhe desde que nasceu e que, nas suas palavras, “traduzem a identidade do povo de Cabo Verde”.

História de Notche

Eugénio Costa nasceu em São Tomé no dia 22 de Fevereiro de 1962. Seis meses depois é trazido pelos pais para a cidade do Mindelo. A mesma cidade que o viu crescer e que se apercebeu do seu dom pela música e consequente paixão pela morna. Com apenas 8 anos de idade começou a apreciar esse estilo musical: “inspirei-me sempre no Bana, porque o meu pai todas as madrugadas quando regressava do trabalho colocava as músicas dele num gira-disco e eu acordava todos os dias ao som das músicas dele”.

Três anos depois, pela mão do cantor Djack Monteiro, começa a cantar nos bares da cidade: Norte Country e Bar Ofélia. “Cantava com Jack Monteiro, Malaquias Costas, Teodoro, Manuel Caldeira e Padidjan”. Em 1980 entra para o grupo The Kings. Em 1984 deixa o grupo e desiste da sua carreira artística. Notche deixou de cantar e mais ninguém pôde apreciar a sua melodiosa voz. “Parei de cantar por desgosto, porque cantar em Cabo Verde sabe a desprezo. Os jovens na altura não valorizavam esse estilo de música. Davam mais importância aos estilos vindos de fora como o rabadop e o reggae”.

Aos 12 anos termina a quarta classe e com ela morre o sonho de estudar música no Liceu Salesiano. “Os meus pais não tinham condições para financiarem os meus estudos”.

 

Um sobrevivente

Nos dias de hoje, “vivo um dia de cada vez. Refugio-me na bebida para me esconder daquilo que o mundo se tornou hoje porque, em vez de me considerarem como eu sou, desprezam-me. As coisas mudaram muito. Vivemos num mundo materialista e só não está só quem tem posses. As pessoas desprezam-se umas às outras em função da imagem e das suas posses”. Sem tecto, sem aposento certo “vou para onde os meus pés me levarem. Faço uns bicos: às vezes vendo peixe e vou ganhando o dia. Como peixe (cru se for preciso) e até como limo. Sou um sobrevivente e o segredo está numa noite bem dormida num local tranquilo se o encontrar e nos 5 litros de água que bebo por dia”, conta Eugénio.

Na caixa das lembranças vai deixando para trás os sonhos e recordações que o marcaram como a história que lhe faz vir lágrimas aos olhos: a história da sua mãe Martinha da Costa Sousa. “Minha mãe era e será sempre uma força da natureza. Carregava cargas pesadas nos armazéns para sustentar os filhos e hoje acalenta o meu sono todas as noites,” diz ele. Mas de um sonho ele não abre mão que é o de ir conhecer a sua terra natal: São Tomé.

Enquanto isso não acontece, continua com sua vida de sempre, de nómada assumido, de “viajante” como ele mesmo diz: “viajar sem sair do lugar, viajar nas minhas mornas que no fundo traduz o que de mais puro tenho em mim que é a minha alma”. Canta pa Nha Mãe é uma das mornas que diz acompanhá-lo para onde quer que vá, porque lhe faz sentir a presença da sua “Diva-mãe”. “Ela sempre me disse fidj k bo infronta e é o que estou a fazer”.

  1. Carlos Ferreira

    “Sou um sobrevivente e o segredo está numa noite bem dormida num local tranquilo se o encontrar e nos 5 litros de água que bebo por dia”. Como um grande amante da Laginha que frequento dia e noite e principalmente à noite no trajecto Avenida Marginal/Laginha e versa por vezes sou brindado com uma voz especial que me toca especialmente pela sua melancolia. Uma ou outra vez cruzei com o dono dessa voz, Notche,e fiquei surpreendido com a maneira como ele filosofa sobre a vida.De relampago tambem passei a conhecer uma pequena parte da sua vida incluindo uma passagem pela America.E fico pensando se aparecesse um mecenas que lhe desse a oportunidade de fazer um tratamento contra o seu problema, que lhe desse um tecto, a possibilidade de uma vida regrada, talvez nascesse ainda um grande artista. Tenho receio que mesmo aparecendo um mecenas, na vida nunca a gente sabe, talvez para Notche seja bastante tarde. Mas a razão de ter sublinhado a primeira frase é que tenho uma admiração especial pelos três cães que o acompanham por todos os lados , dia e noite, com uma fidelidade que só podemos encontrar nos cães.
    Conforme ele me confessou ele pode dormir tranquilamente em qualquer parte pois ai daquele que se aproximar dele com mas intenções porque ficaria arrependido arrependido por toda a vida. Esses cães estão prontos a defende-lo até o fim.
    A meu ver na foto e no texto faltaram esses três caozinhos , seus companheiros inseparáveis na desgraça.

  2. Silva

    Djô da Silva há-de espiá pa el e fazé dél ot suceso q nem Césaria Évora…

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