PARTE I: REGIONALIZAÇÃO

26/05/2012 01:27 - Modificado em 26/05/2012 01:28

Antes de responder à pergunta que se encontra no final da Parte III deste artigo, solicito que leia o conteúdo, posto que, motivado por uma saudosa ausência de meio século, o autor não pode se ater a uma realidade atual do século XXI porque corre o risco de ser tendencioso, escorregando numa possível inverdade ou uma irrealidade.

Por não possuir informações concretas, por apenas ter informações ‘en passant’ com injustificadas omissões mil por parte de quem peço informações, quando soube do assunto, resolvi escrever a respeito, não emitindo qualquer opinião para não ser parcial, mas sim evocando o direito de pensar sobre algo que também me pertence: – CABO VERDE, principal e nomeadamente, Mindelo, Ilha de S. Vicente, palco da minha juventude, dos 11 aos 20 anos, ou seja, da admissão aos liceus ao 7º ano do curso liceal.

Antecipadamente peço desculpas se vir a cometer erros conceituais, pois, utilizando a minha área de atuaçãoprofissional só diviso, lá longe, muito embaralhado, a teoria do caos da mecânica quântica no que se refere a um estudo sócio-etnográfico para uma possível aplicação de fato, visto que a teoria do caos ser uma das leis mais importantes do Universo (algumas teorias dizem que é Pluriverso e não Universo), presente na essência – material e imaterial – de quase tudo o que nos cerca. Não há possibilidade de localizar no tempo, embora na circunscrição espacial seja geograficamente determinado, uma mudança no início do evento de uma aculturação poder trazer consequências enormes e absolutamente desconhecidas na conceituação social, em virtude de tais eventos serem praticamente imprevisíveis – caóticos, portanto. Parece assustador, mas é só dar uma olhada nos fenômenos mais casuais da vida para notar que essa ideia faz sentido, como, por exemplo, o desmantelamento físico de grande parte de uma cidade, numa ridícula tentativa de negação cultural, tentando apagar a história na mente de uma população, como se isso fosse possível. As causas remotas e atuais só aqueles que vivenciam é que estão aptos a determinar, dentro de uma conceituação limitada pelas ciências sociais.

Muito se tem escrito sobre “regionalização”, que se tornou em um problema, quase que generalizado e, pelo que depreendo, não muito aceite pela parte governante da chamada República de Santiago, sem menosprezo de qualquer etnia. Dado à diversidade cultural individualizada, mesmo dentro de cada uma das ilhas que constituem o arquipélago de Cabo Verde, onde se pode encontrar nichos culturais com raízes próprias, é imperioso esclarecer aos que não conhecem, que:

 

Primeiro – O vocábulo regional é um adjetivo que vem do latim regionalis, com o valor semântico

dizendo que é aquele que pertence a uma região, próprio de uma região ou característico de uma determinada área. Na linguística é o campo onde mais se verifica uma individualização, embora o afastamento geográfico seja ínfimo. Pode-se, inclusive, dizer-se que há um autêntico dialeto regional, dentro do âmbito nacional, que difere claramente da língua oficial padrão e que se estabelece como língua padrão de comunicação e cultura. A língua portuguesa falada em Cabo Verde é caracterizada por diversas particularidades fonéticas (sotaque) que a aproxima ao português falado em Portugal (5% dos falantes gerais), consequência da colonização que durou 515 anos – do achamento (1460) à independência (1975), lexicais (palavras regionais) e gramaticais. Há que se considerar o aspecto musical, cujo repertório é formado por músicas regionais características de uma determinada ilha, e cujos músicos usam trajes típicos: – bailes nas ilhas de Santo Antão, S. Vicente, S. Nicolau com trajes europeizados, canizade e cavalhada na ilha do Fogo, tabanca na ilha de S. Tiago, tipicamente voltado para Leste, etc.

O badiu, dado à monocultura musical e folclórica vindado oriente geográfico, tabanca (com origem na Guiné-Bissau), se apropria de termos de outras ilhas que é tendência geral nos dias que correm, dado à mania centralizadora da capital. É o caso do vocábulo “FUNANÁ”. Este vocábulo que se generalizou para significar baile, tem a sua origem na ilha do Fogo e da qual este autor é um dos criadores. Explicando: – Regressando de férias, de Portugal e tendo terminado o antigo curso de regente agrícola, Fortunato Gomes de Pina Jr. (hoje médico veterinário residente em Portugal) regressou ao Fogo visando a fazer o trabalho de conclusão do curso. Na época, ele gostava (quero crer que ainda gosta) dos bailinhos, tanto na cidade como no interior, muitas vezes em casas de terra batida. Nesta matéria eu não ficava atrás… Não existe caboverdiano que não tenha um nominho… O dele era e é FUNÁ. Ele tem um sobrinho, homônimo, filho da Zinha Lopes da Silva, que estava na fase de começar a falar. Eu chegava lá,na casa da Zinha,e perguntava: – Onde está o Funá ?, visando a combinarmos a ida para outro bailinho. O menininho respondia, entendo que eu estava procurando o Fortunato (Funá): – FUNÁ NÁ… Ou seja, ‘o Funá não está’. Ele estava no escritório do pai, Nho Tuntum, pai dele, elaborando o trabalho para levar para Portugal e apresentar pára a conclusão do curso. Depois, quando saíamos para os nossos bailinhos e alguém perguntava pelo FUNÁ ele dizia FUNÁ NÁ. Daí passamos a chamar esses bailinhos de ‘FUNANÁ’, que depois foi apossado, como sói acontecer, pelo badiu e espalhado para o mundo com o significado de “baile popular”.

 

Segundo –Regionalismo é um sistema que afirma e existência de entidades regionais que reivindicam

seu reconhecimento. Ora, trata-se, assim, de uma expressão própria de uma região ou mesmo

dentro de ilhas lexicais exprimindo o sentimento relativo a essa região ou a essa ilha dialetal, com o mesmo significado de provincianismo. Assim, é um fato linguístico próprio também chamado de idiotismo específico de uma região. Antes que os donos da língua portuguesa falada em Cabo Verde comecem a se barafustarem, explico que o vocábulo idiotismo, na linguística, é o mesmo que idiomatismo, que significa forma linguística própria de uma língua dada que não possui correspondente sintático em uma outra língua. Exemplificando: – “O infinito flexionado é idiotismo do português; o apresentativo c’est é um idiotismo do francês; how do you do é um idiotismo do inglês…

O regionalismo está presente em qualquer ocasião em que for possível descobrir no comportamento dos personagens, no desenvolvimento da ação, na escolha dos vocábulos ou na sintaxe a presença condicionante de uma região. De acordo com esta concepção, tudo seria, no todo ou em parte, regionalista. Tornou-se, por conseguinte, necessário precisar o conceito com mais rigor. A primeira dessas determinações é dada pela consideração histórica.

Deste modo, já se pode pensar que é uma forma de descentralização administrativa que consiste em dividir um território em regiões, delegando aos órgãos responsáveis pela sua administração os poderes competentes, visando a que não se deixe desaparecer o que a história produziu. Se não houver regionalização, impreterivelmente, haverá uma hibridização cultural que não tem pés nem cabeça…

 

Goethe inventou no último decênio setecentista o vocábulo ‘morfologia’, que Copérnico, Linneu e Lavoisier morreram ignorando o seu valor semântico.

Morphé, forma, logos estudo. É, assim, o estudo das formas exteriores dos corpos. Nove anos depois da morte de Goethe, o vocábulo chegou a Paris pela mão de Auguste de Saint-Hilaire. A fisiologia apossou-se dele e a subsequente biologia teve condomínio, entendendo-se condomíniocomo a posse ou o direito simultâneo, por duas ou mais pessoas, sobre um mesmo objeto ainda em estado de indivisão, sendo, portanto, co-propriedade, compropriedade. Condomínio é uma palavra originada no latim medievalcondominìum, por influência do inglêscondominiumno ano de 1714, cuja derivação é de cum ‘com, em companhia de, ao mesmo tempo que’ e latimdominìum,ii ‘propriedade, direito de propriedade’, derivado de domìnus,i ‘proprietário, possuidor, senhor de’, ligado a domus,i ou domus,us ‘casa, habitação, família, pátria’; ganha curso, no século XIX, com significação equivalente ao do francêscopropriétémuito usado no século XIX-XX.

A embriologia, a histologia, a anatomia comparada, pesquisando a disposição dos órgãos – acompanham o desenvolvimento e limitação dimensional que lhes dão a forma característica, segundo dizia a professora Maria da Conceição Lícker Santos, e a sociedade olhando-se no espelho dessas ciências aplicou-o ao método das ciências sociais. Realmente, Oswald Spengler, no final do século XIX e começo do XX afirmava que todos os métodos para compreender-se o universo podem em última análise chamar-se morfologia. Não é bem um exagero mas é muito parecido. O estudo da conformação dos seres organizados e decorrentemente, das etnias e instituições em que essas entidades vivem e agem na continuidade da ação interativa, se não constitui (como queria Spengler) o resumo dos métodos, é um dos mais legítimos na aproximação realística não apenas do conhecimento, como de populações (pequenas ou grandes).

Se um organismo social fixou-se em constante e determinado aspecto, conhece-se de sua presença unicamente pela constatação dessa forma que parece definitiva e regular. Compete à “biologia social evidenciar-lhe a estrutura íntima, podendo-se até dizer ‘celular’, explicando por que seu crescimento se deteve quando alcançada determinada dimensão e como a excitação funcional orientou-se para produzir a tipologia, origem e espécie. Naturalmente quando se trata de criaturas humanas as respostas, como diria Toynbee, nem sempre obedecem ao ritmo das reações químicas ou das leis de física em geral. Há, de permeio, um diabo azul atrapalhante. Pode advir uma mutação no organismo ou no grupo e o caminho que deveria ser para uma direção corre para outra bem diversa.

Transpondo este conceito para a etnografia, numa lógica primária, tudo terá a forma de maior rendimento útil. Para isso, há que se entender a etnografiacomo sendo estudo descritivo das diversas etnias, de suas características antropológicas, sociais, etc. e o registro descritivo da cultura material de um determinado grupo social – pequeno ou grande – e até um povo. Tudo isso desemboca na etnologia – estudo ou ciência que estuda os fatos e documentos levantados pela etnografia no âmbito da antropologia cultural e social, buscando uma apreciação analítica e comparativa das culturas, conforme o autor deste trabalho expressara numa palestra proferida no Liceu Gil Eanes, em Mindelo, S. Vicente, em novembro de 1958, palestra sob os auspícios do GTCGrupo do Terceiro Ciclo, inspirado por Abílio Duarte.

Desta forma, reduzem a superfície dispensável e tendem a manter uma disponibilidade prática. Haverá um processo de desgaste, de apuração seletiva, evitando o supérfluo no campo ergológico, comparando, estudando e apreciando a cultura material. Os grupos humanos iniciais tomariam a conformação instintiva que maior defesa produzisse e menor atrito provocasse.

 

Continua na PARTE II…

 

 

V.Koening

  1. Adrino Miranda Lima

    Dou as boas vindas ao eminente professor Vladimir Koenig pela sua iniciação neste espaço e pela abordagem de um tema que nos é caro – a Regionalização. Fá-lo com erudição e riqueza de conteúdo, quase parecendo estarmos a assistir a uma aula dele, ou não fosse, na verdade, um Professor com todas as letras.
    Esperemos pela continuação deste artigo, sendo certo que iremos ter um valioso contributo para o debate que tanto se impõe.
    Um abraço amigo

  2. José Lopes

    A regionalização é efectivamente um debate que se impõe pelo que é bem-vindo a contribuição de este outro Mosquiteiro, o Prof. Koenig. Para além de mostrar uma refinada e profunda cultura geral ele nos introduz conceitos filosóficos importantes para perceber a dialética entre o Universal e o Particular, que é a dialéctica ente o Estado Regionalizado e o Centralizado Autoritário. Este debate sobre a Regionalização não pode ser feito da forma como propõe o JMN na sua intervenção de Lisboa em que está mais interessado em matar o debate. É normal a reacção dele, o chefe fila de uma política, que todos conhecemos, que não aceita a diversidade cultural, linguística e étnica em Cabo Verde. Ao pretenderem uniformizar tudo debaixo de um mínimo divisor comum, ditado pelo conceito da República de Santiago, está-se a matar Cabo Verde, a criar o tal Homem Novo, uma Cultura Nova, um clone cabo-verdiano digno da engenharia social de outros tempos. Sem um sobressalto cabo-verdiano liderado por mindelenses, que exasperam para que o Monte de Cara acorde Cabo Verde corre a perdição da sua alma.

  3. Ao contrário do referido pelo responsável do Governo, JMN, a “Regionalização”, é meramente o artigo feminino da ideia que se deseja para o melhoramento de CV e nunca o seu atraso. Todos estamos preocupados com o caminho que as coisas estão a ter, nada saudável ao futuro das ilhas; acaso esta discussão não for real e efectiva, ao invés de forma arrogante, perdendo a inteligência, persistindo a indolência e teimosia política sobre o tema. Mais uma vez de maneira conclusiva, o exemplo do Prof. VK.

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