LUGAR E FUNÇÃO DA LÍNGUA PORTUGUESA NOS ORGANISMOS INTERNACIONAIS

22/06/2013 05:38 - Modificado em 22/06/2013 05:38

livrosTomo de empréstimo este título, que foi tema de um dos painéis do « Congresso da Língua Portuguesa no Mundo », ocorrido na Universidade da Sorbonne e na Unesco nos dias 28 e 29 de maio respectivamente. Este artigo é uma adaptação da minha comunicação no painel.

 

1. A lusofonia merece ir mais longe !

 

Ouvi dizer no colóquio que a língua portuguesa está presente em 14 organizações internacionais. Muito bem! Mas que ela aspire a uma maior visibilidade no concerto das nações, nada mais legítimo. Além de ser o sexto idioma falado no mundo, de Portugal ao Brasil e de Cabo Verde ao longínquo Timor, o português é, a seguir ao inglês, a língua  que mais se propagou no planeta em longitude. Dos idiomas que emanaram da Europa para o mundo, é o terceiro com maior número de locutores.

 

Reflexo de um passado comum mas diversamente vivido, a lusofonia é uma ponte entre os diferentes povos que a partilham. A sua pujança demográfica está bem patente nos 250 milhões de lusófonos que somos – pelo menos em teoria, mas a teoria é igualmente válida nos países onde o francês ou o inglês coabitam com as línguas autóctones : todos os índios do Brasil não devem falar português, como todos os bosquímanos não falam inglês !

 

Da coabitação do português com os falares “indígenas” nasceu, pelo menos em CaboVerde, um idioma vernáculo: o crioulo, língua materna das nossas ilhas. E se a nossa pátria é a nossa língua, dixit Fernando Pessoa, sou homem de duas pátrias, que assumo por inteiro e por igual.

 

Aceitei entrar neste debate como pensador livre : livre das peias do « politicamente correcto » que às vezes nos inibe, contando porém com os espíritos lúcidos que encaram a realidade de frente para evoluir – neste caso, para elevar a nossa língua comumao lugar que lhe é devido nos grandes areópagos deste mundo. E em verdade vos digo, uma análise pragmática e realista implica reconhecer que a língua de Bocage e Pepetela, para ser melhor considerada, deve desembaraçar-se de complexos endógenos ainda bem presentes, por exemplo, numa certa emigração; tal análise passa pelo « inventário » descomplexado dos constrangimentos históricos que a subalternizaram em relação aos outros grandes idiomas planetários. Que essa subalternização vem de longe, do arcaico império lusitano ao inclinar-se, por imperativos políticos ou geo-económicos, a outras potências hegemónicas…

 

Feito este preâmbulo, pode-se perguntar: – «Porquê todo este palavreado para falar da língua portuguesa nos organismos internacionais?»

 

Porque o passado deixa marcas, e eu diria que uma coisa implica – e sobretudo explica – a outra! E a “outra” – é esta: pelas valorosas gentes que a comungam e pela diversidade cultural que veicula, a língua deMia Couto e Jorge Amado merece um outro reconhecimento fora do seu espaço territorial e existencial. Falar da lusofoniano mundo pressupõe agir para colmatar a sua ausência nas tribunas internacionais onde ela merece estar por direito – pelo menos oficialmente, porque de resto o português impera pelos corredores. Fica incompleta qualquer análise que não lhe reivindique esse direito, como língua de trabalho e não como uma respeitável « língua segunda » como é vista por muito boa gente la fora!

 

2. Uma língua que se projecta no futuro

 

Graças aos seus aliados no seio da Nato, Portugal aguentou, no século passado, uma guerra colonial em três frentes.  Nessa espécie de cruzada capitalista contra a « ameaça comunista », eram as grandes potências occidentais quem mais lucrava  com a colonização: do petróleo aos caminhos de ferro, diamantes e outras indústrias mineiras, nada escapou às multinationais britânicas, americanas, francesas, alemães – e mesmo sul-africanas. Os grandes deste mundo a servirem-se como em casa própria, e os portugueses obrigados a emigrar : uns por uma vida melhor, outros fugindo à ditadura ou à guerra nas savanas de Africa.

 

Ora bem, uma nação oprimida e sem tecnologia para explorar os seus próprios recursos, a que lugar pode aspirar a sua língua nos centros de decisão mundiais?Por imperial que seja não é uma potência económica, e por mais português que fale não é uma potência linguística ! O farol « civilizador » do império não podia brilhar porque não ha luz sem liberdade, nem verdadeira « civilização » dissimulada na hegemonia de um povo sobre outro(s). E assim viveu a língua portuguesa às escuras fora do império, não podendo brilhar la onde o próprio « Estado Novo » era mal visto pela sua obstinação colonialista !

 

Do mesmo modo, a retórica lusitanista de então, falsamente igualitária, sucumbiu aos anseios de liberdade nas antigas colónias africanas, cuja luta pela independência decorreu sob o signo da solidariedade… lusofonista! A independência de Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, S. Tomé e Moçambique veio ampliar e dar novo alento à lusofonia: graças ao empenhamento concertado dos PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa), a língua de Saramago integrou a Organização da Unidade Africana como língua de trabalho, ao mesmo tempo que Portugal se redimia aos olhos da Africa anticolonialista!

 

Que a comunidade lusófona devia erigir-se num bloco linguístico e cultural (a exemplo da Francofonia e do Commonwealth), em boa hora o entenderam os nossos governantes : em 17 de julho de 1996 nascia em Lisboa a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Em 2002 ampliou-se a CPLP a Timor-Leste, finalmente livre do jugo indonésio.

 

O Grupo CPLP na UNESCO, por cuja iniciativa se comemora todos os anos o Dia da Língua Portuguesa, está apostado em fazer dela a sétima língua de trabalho naquela organização da ONU. Assim possa ela subir ao púlpito da prestigiosaa Sala I, onde só é falada nessas celebrações e nas conferências gerais (de dois em dois anos)!

 

Progressos substanciais vêm sendo realizados no quadro de uma lusofonia interactiva e solidária, e não apenas a nível politico-diplomático. O português é hoje mais ensinado no mundo, por exemplo no Senegal e em países do Mercosul (em regime de reciprocidade com o ensino do espanhol no Brasil).

 

A lusofonia é uma potência, porém não é de hoje que obusinessprevalece sobre a língua : um império linguístico nunca foi considerado, só por isso, um império tout court. Com o Brasil a entrar para a corte dos grandes como a sétima potência mundial,e Angola e Moçambique a seguir-lhe o passo, não é preciso ser profeta para vaticinar uma nova era à nossa língua comum (a exemplo do mandarim no que se refere à China).

 

3. Os constrangimentos de hoje e osfantasmas do passado

 

Infelizmente, em tempo de vacas magras, muitas vezes fica a vontade política entalada entre o querer e o não poder ! No caso em presença, os elevados custos de tradução simultânea impõem uma séria reflexão à diplomacia multilateral. Razões alegadamente orçamentais estarão, por exemplo, na origem de um recuo do ensino do português em França…

 

E a dispersão também não ajuda: espalhadas pelos cinco continentes, não há duas nações lusófonas que façam fronteira, nem por mar nem por terra, como os países hispanófilos na América Latina, francófonos e anglofalantes em Africa.

 

3.1. A « concorrência » do espanhol

 

Pode-se perguntar se a aprendizagem do português não sofre de uma certa « preguiça » em relação à língua espanhola, cuja escrita e fonologia parecem mais inteligíveis aos ouvidos de quem fala francês, inglês ou italiano.Um interveniente no recente colóquio referiu-se, a propósito, à evidente preponderância da língua de Cervantes sobre a língua de Camões. O próprio lusofalante acha que fala espanhol, mas o inverso não é bem assim ! E achando o espanhol que os lusófonos o compreendem, para quê preocupar-se em compreender o português? Como todo o mundo vai na « cantiga » de que quem fala português também entende o espanhol, não fica muito espaço para a lusofonia…

 

Daí (e não só) a ausência do português nas cabines de tradução simultânea… e que nos fora internacionais nos obriguemos, o mais das vezes, a intervir em inglês ou em francês !

 

3.2. A língua portuguesa na emigração

 

Dizia eu no meu preâmbulo que, para se fazer respeitar nas tribunas internacionais, a língua portuguesa deve libertar-se de preconceitos adquiridos, nomeadamente nos meios emigrados. Vem a propósito lembrar que a partir dos anos sessenta, com a chegada a Lisboa de camponeses de Cabo-Verde, acossados pelas estiagens e abandonados à sua sorte pelo regime de Salazar, o tesouro português resolvia um duplo problema : com esses imigrantes convertidos em pedreiros e operários, estava garantida uma mão de obra barata, permitindo aos próprios portugueses emigrarem, por sua vez, para França, Luxemburgo, Estados-Unidos ou Africa do Sul. Sem provocar uma ruptura no mundo laboral, estavam também asseguradas as remessas desses emigrantes, tanto mais prividenciais que todo o dinheiro era pouco para suportar os custos da guerra colonial na Guinée, Angola e Moçambique.

 

Um povo que se expatria leva consigo a sua língua (e cultura), seja numa perspectiva de conquista/colonização, seja à procura de uma vida melhor, ambas as situações vivenciadas pelos portugueses no passado. Porém, se no primeiro caso a língua é hegemónica, a emigração de sobrevivência pode resultar, pelo contrário, numa inibição: instintivamente prevalece a língua do país de acolhimento, cujo deficiente domínio, decorrendo de um modesto nível de instrução, não é alheio a um certo acanhamento.

 

Sem dúvida se expandiu a língua portuguesa através dos emigrantes (portugueses e afro-lusófonos) que foram parar à França, Alemanha, Senegal, Holanda, Estados Unidos ou Africa do Sul. Mas fatalmente, também foi-se retraindo nos países de acolhimento, onde sofreu um bloqueio agravado pela petulante ignorância daqueles que viram nela um simples idioma de emigrantes! O exemplo que conheço mais de perto é o dos emigrantes portugueses e caboverdeanos dos anos 60 em França, os quais tiveram que se exprimir em francês e, excepções à parte, assim habituaram a sua prole. Nem mesmo nos meios mais insuspeitosse apagaram, até hoje, os resquícios desses anos de carestia. Lembro-me de um colóquio sobre literatura lusófona no Instituto Camões em Paris, a sala quase toda ela replecta de portugueses, e todo o mundo a falar em francês, com intérprete, imaginem! a traduzir… para português! Não me contive em dizer o que pensava dessa “heresia linguicida” numa casa destinada a divulgar a língua de Camões, que entre palmas e “bravos!” voltou à sala! Foi essa uma das cenas mais burlescas a que assisti… mas não é raro ver portugueses ou caboverdeanos falando entre si em francês, com um sotaque de arrepiar, no restaurante ou na rua, e até a bordo da TAP ou da TACV! Não me refiro aos jovens a quem se deve uma desculpa por terem cá nascido – refiro-me a pessoas que vieram adultas – logo, a falar português e/ou crioulo!

 

3.3. “Entre as brumas da memória”,um império colonial “por procuração”

 

Mas a subalternização da língua portuguesa, igualmente a encontramos “entre as brumas da memória”, ou seja na sua conturbada história e seus paradoxos desde os recuados tempos do mercantilismo colonial; na administração caótica da coroa, traduzindo-se numa gestão ultra-proteccionista face às potências concorrentes, mais à vontade nos negócios ultramarinos porque industrialmente mais avantajadas. Com franceses e ingleses a repudiar o Tratado de Tordesilhas (que em 1494 dividia o mundo “descoberto e a descobrir” entre a Espanha e Portugal), estava aberta a corrida aos escravos africanos, ao ouro das Américas, sedas e especiarias do Oriente. E se o português foi levado pelas caravelas até aos confins da Oceânia, foram outros idiomas (europeus e não só) que imperaram no comércio – mais um curioso paradoxo das “descobertas”. E não é de hoje  a sombra ameaçadora da vizinha Espanha: com a perda temporária da soberania portuguesa em favor de Castela (em 1580) e o subsequente parcelamento do Império entre as potências “outsiders”, ficaram os negócios portugueses (e com eles a língua) circunscritos a alguns entrepostos comerciais disseminados pelo mundo.

 

Ignoro em que língua se exprimiram os negociadores portugueses na Conferência de Berlim (1884-1885), que endossou este facto consumado ao consignar no direito colonial universal o princípio da ocupação/administração efectiva ; se havia tradução simultânea ou se prevaleceu o inglês que já imperava na era victoriana. A diplomacia de D. Carlos I não conseguiu impôr como critério a primazia das « descobertas », mas astuciosamente la conseguiu salvar a honra do império, disseminado no que são hoje os países lusofalantes mais os pequenos enclaves de Goa, Damão e Diu (anexados à força pela União Indiana em 1961) e Macau (retrocedido à China Popular em 1999).

 

Não irei ao ponto de insinuar que Portugal administrou um império colonial “por procuração” autenticada com o selo da talassocracia britânica… mas penso nessa espécie de « anjo da guarda » que foi o Reino Unido face aos apetites anexionistas da vizinha Espanha e às invasões napoleónicas (1807/1811) ; na tradicional aliança luso-britânica a pender para os interesses da poderosa aliada além-Mancha. Grande « alhada » foi aquela em que se meteram os portugueses ao assinar  o famigerado tratado de Metween em 1703! Penso no injurioso ultimato recebido de Londres em 1890, no auge das campanhas de exploração e ocupação do innerland africano e de « pacificação » dos povos ditos « indígenas » (retomando a fraseologia colonial): ou o governo português evacuava o Chire (vasto território entre Angola e Moçambique), ou era a guerra! De pouco serviu o famoso « mapa cor-de-rosa », e lá levaram os british o Chire! Mais um ponto a favor da língua inglesa, hoje em dia campeã mundial em comunicação e marketing.

 

Hoje os tempos são outros e a lusofonia está de boa saúde: investe novos espaços e sobe a  novas tribunas. Mas a ponte que nos une deve passar por cima das “brumas da memória”e dos complexos que nos inibem !Quanto mais considerarmos e promovermos a nossa língua comum, mais à vontade estaremos para propulsá-la ao lugar que lhe é devido no concerto das nações.

 

Assim me parece. E se viu alguém malícia nisto… « honni soit qui mal y pense »!

 

 

Mantenhas de Paris Paris, 5 de junho de 2013

David Leite

 

  1. Joana Inês Sá

    Um artigo para ler e meditar! Parabéns David Leite! Precisamos – nós falantes do português, e bilingues (crioulo e português) em distintas situações cuja utilidade e oportunidade só o próprio falante destas duas línguas as sabe distinguir – precisamos de ouvir e de ler artigos com este conteúdo. Um verdadeiro convite à boa reflexão das vantagens e da riqueza de possuirmos duas línguas, sendo uma descendente da outra e quanda ambas despidas de complexos de inferioridade,torna-nos mais cultos.

  2. Joana Inês Sá

    Um artigo para ler e meditar! Parabéns David Leite! Precisamos – nós falantes do português, e bilingues (crioulo e português) em distintas situações cuja utilidade e oportunidade só o próprio falante destas duas línguas as sabe distinguir – precisamos de ouvir e de ler artigos com este conteúdo. Um verdadeiro convite à boa reflexão das vantagens e da riqueza de possuirmos duas línguas, sendo uma descendente da outra e quanda ambas despidas de complexos de inferioridade,torna-nos mais cultos.

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