Erdogan acusa a oposição e o Twitter pela violência em Istambul

3/06/2013 10:49 - Modificado em 3/06/2013 10:49
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Mais uma madrugada de violência em Istambul. Primeiro-ministro ordenou investigação de sinais de “interferência estrangeira”.

 

 

O primeiro-ministro turco, Recep Erdogan, acusou o Partido Republicano Popular, na oposição, de estar a manipular os manifestantes que ocuparam a principal praça de Istambul. A madrugada desta segunda-feira voltou a ter confrontos não só em Istambul, mas também na cidade portuária de Esmirna, onde foram lançados engenhos incendiários contra instalações do partido governamental.

 

Os protestos começaram há sete dias e a violência eclodiu há quatro. O motivo imediato para esta onda de indignação popular foi o anúncio de que o parque Gezi, junto à praça central de Taksim, em Istambul, seria destruído para ser reconstruída uma caserna militar otomana com um centro comercial no interior.

 

Erdogan, classificando os manifestantes de “franja extremista”, atacou a oposição. “O maior partido da oposição, que todos os dias apela a que se faça resistência nas ruas, está a provocar estes protestos”, disse o primeiro-ministro que, no domingo, numa intervenção que passou na televisão turca, considerou as redes sociais um perigo.

 

Disse ainda haver suspeitas de que há “actores estrangeiros por trás as manifestações e que os serviços secretos turcos vão investigar se há “interferências de potências estrangeiras” nos protestos.: “Não é possível revelar os seus nomes. Mas vamos encontrar-nos com os líderes”, assegurou Erdogan, citado pelo site em inglês do jornal turco Hurriyet.

 

As redes sociais estão também a ser visadas pelos dirigentes turocs: “Agora há uma ameaça chamada Twitter. E os melhores exemplos das mentiras [da oposição] estão ali. Para mim, as redes sociais são a maior ameaça à sociedade”, tinha dito o primeiro-ministro no domingo à noite.

 

Na madrugada desta segunda-feira, as ruas próximas da sede do governo forma cortadas pela polícia.

 

Mesquitas, lojas e a universidade foram, segundo a Reuters, transformadas em hospitais improvisados para acolherem os feridos, em número não determinado, nos confrontos da noite de domingo — uma associação médica disse que desde sexta-feira foram assistidos 484 manifestantes em hospitais de Istambul, onde os protestos têm sido mais intensos. A BBC diz que alguns hotéis também abriram as portas a estes feridos e nota que os protestos estão a criar uma unanimidade pouco habitual, com os adeptos dos clubes rivais — em Istambul não há rivalidade clubística, há ódio — a marcharem juntos.

 

Na origem deste descontentamento está a política de Erdogan e algumas regras que o governo aprovou nas últimas semanas e que, segundo os observadores, têm como finalidade islamizar a sociedade turca.

 

Recep Erdogan, líder do Partido do Desenvolvimento e da Justiça, é um conservador. O partido é de inspiração islâmica e está no poder há dez anos. Tem imposto uma visão moralista da sociedade que, apesar de maioritariamente muçulmana, é laica.

 

Recentemente, foi limitada a venda de álcool, assim como a publicidade a este produto. E numa estação de metro de Ancara foi transmitido um aviso sonoro dizendo a um grupo de adolescentes que lá se encontrava que os beijos em público são proibidos. As hospedeiras da Turkish Airlines foram proibidas de usar saias demasiado curta e justas e baton vermelho — a revista Foreign Policy fala de uma vaga de neo-otomanismo na Turquia, de que faz parte um plano de construção de edifícios de grande envergadura, e o centro comercial da Praça Taksim fará parte desse plano.

 

Fontes oficiais citadas pela BBC indicam que os protestos de Istambul alastram ao resto do país. Nos últimos dias houve manifestações contra o governo em 67 cidades — foram detidas 1700 pessoas, que na sua maior parte já foram libertadas. Imagens de televisão mostraram parte do edifício do AKP em chamas, em Esmirna, mas a agência Dogan noticiou que os bombeiros dominaram o incêndio.

 

“Erdogan não ouve ninguém”, disse ao jornal britânico The Guardian Koray Caliskan, cientista político de Istambul e professor na Universidade do Bósforo. “Nem sequer ouve os membros do seu partido. Mas depois destes protestos terá que aceitar que é o primeiro-ministro de um país democrático e que não pode governar sozinho”. Foi o Presidente, Abdullah Gül, que deu ordem à polícia no fim-de-semana para se retirar da Taksim e não avançar sobre os manifestantes, já que Erdogan se propunha acabar rapidamente com os protestos.

 

Apelo da União Europeia

O risco de a violência subir de tom e de a Turquia se tornar um país em insurreição — e trata-se de um vizinho da Síria, país que está há mais de dois anos em guerra civil — levou os representantes da União Europeia e dos Estados Unidos a apelarem a Erdogan para manter a calma e evitar a presença da polícia nas manifestações.

 

“Deve ser aberto um diálogo para se chegar a uma solução pacífica para o problema”, disse a comissária europeia dos Negócios Estrangeiros, Catherine Ashton, citada pela Reuters. Uma porta-voz do Governo americano, Laura Lucas, fez apelo idêntico e pediu “um exercício de contenção” ao Governo turco.

 

Os protestos vão continuar, estando marcadas novas concentrações para esta segunda-feira. Erdogan, por enquanto, mantém a sua agenda e nos próximos dias visitará países do Magrebe.

 

 

Publico.pt

 

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