A FARSA E A MENTIRA

22/05/2012 00:00 - Modificado em 21/05/2012 23:33

A mim não me move o revanchismo, porque “aquila non caput muscas…” ! Até porque tomei algumas bordoadas mentirosas na luta pela redemocratização do Brasil, simultaneamente com a independência de Cabo Verde e tive de me aguentar com um “informante de ex-PIDE” no meu pé, nos anos 60 / 70, quando trabalhava na aviação para sobreviver e estudar, de nome CARLOS CALDEIRA MARQUES, caboverdiano, recebendo informações do informante do DOPS, polícia política brasileira no aeroporto do Galeão, Jorge Casino, e retransmitindo-as para o agente da PIDE no consulado de Portugal, no RJ.

Não me tornei o burguês das lutas alheias, como muitos camaradas, que nunca sofreram, felizmente, um arranhão, embora recebam pensão permanente por terem sido “molestados” pela ditadura, no Brasil e eu, da mesma maneira que fui preso pelo DOPS, fui libertado 21 dias depois, sem nada constar da prisão que sofri, porque feliz ou infelizmente, eu era estudante pobre que morava na Casa do Estudante…

A grana de hoje deve andar, aí, em torno de R$6 mil por mês. Continuo o apaixonado de sempre pelos fatos. Quando cheguei ao Brasil, a minha perspectiva era certamente outra, mas já me incomodava a ideia de que o Estado pudesse sufocar os indivíduos com as suas verdades, a despeito dos… fatos ! Por isso, cheguei ao Brasil, vamos dizer assim, um “rebelde” e, por isso continuo, vamos dizer assim, um “rebelde”.

Eu me dei conta de que fui crítico, a cada hora numa trincheira, de todos os governos de Costa e Silva para cá. E, hoje, costumo bater boca, ainda que indiretamente, com sumidades que apoiaram todos os governos — do Marechal Costa e Silva para cá … !!! São mais inteligentes do que eu, claro ! O “progressismo” já fez verdadeiros milionários no Brasil. Fui de esquerda quando dava prejuízo e deixei de sê-lo quando passou a dar lucro porque sempre achei que era trapaça do capitalismo … ! Sujeito burro, eu … ! ! !

Sim, o tempo foi me convencendo, e já há muito é uma convicção da qual não abro mão, de que a democracia é mesmo o pior regime de governo possível, com a exceção de todos os outros, como disse aquele gordo do uísque com charuto e chapéu de coco … Não é o modelo perfeito, mas é o que permite, ao menos, tratar as diferenças sem ter de avançar no pescoço alheio… Na democracia, “pacta sunt servanda“… E fim de papo! Vale o combinado. Os acordos têm de ser cumpridos. Os contratos não podem ser desrespeitados.

É o contrário do que pensa boa parte — se é que não se fala da totalidade — das esquerdas de hoje, pelo menos no Brasil. Costumam apelar à chamada “dialética da história” para sustentar que leis, mesmo democraticamente instituídas, podem e devem ser desrespeitadas se essa for “a vontade da sociedade”. Chamam de “vontade da sociedade” a pauta que ela própria define, sob comandos espúrios, esquecendo duas condições pétreas: – HIERARQUIA E DISCIPLINA ! ! !

Quando jovem com sangue nas guelras, em Mindelo, estudante no Liceu Gil Eanes, dos 16 aos a mais ou menos, 21, também cheguei a acreditar nisso. Quando descobri que era a porta de entrada de todos os males do mundo; quando me dei conta de que essa perspectiva correspondia à morte do humanismo — à medida que ela não comporta qualquer princípio inegociável… constatei que se tratava de um mal superior àqueles outros que eu combatia (e que continuo a combater) porque, em nome da resistência e de um mundo alternativo, então tudo era possível. Se me era dado combater o que considerava “imoralidade alheia” com a ausência da moral (coisa de “burgueses”), então a diferença entre “nós” e “eles” é que o mal que preconizávamos que não tinha limites. A nossa vantagem comparativa estava em surpreendê-los usando seus métodos detestáveis e indo muito além. É claro que passei a repudiar essa visão de mundo de modo absoluto. Desses, em Cabo Verde, só sobraram três: um está na Praia, mora na Achada Santo António, outro, possivelmente está no Fogo e o terceiro está por aí rodando…

Pois bem. As atitudes dos mandantes centralizadores de Cabo Verde pós-independência negaram qualquer perspectiva, embora as declarações do partido único afrontem de forma clara o texto da lei. Dizem com todas as letras — e contra a letra legal, reitero — que o objetivo é apurar centralizando apenas por um dos lados. E as vítimas, mesmo aqueles que não morreram, também fizeram um país. Ao contrário até: assassinos notórios, ou seus partidários, passaram a receber, diretamente ou por meio de familiares, indenização do Estado. Não adianta me xingar, me ofender, nada disso. Se puderem, neguem a evidência. Se não puderem, tenham ao menos a coragem de defender que alguns são maus assassinos, e outros, são bons assassinos.

Afirma JMN que não lhe move o desejo de reescrever a história de forma diferente do que aconteceu, e sim a necessidade imperiosa de conhecê-la em sua plenitude, sem ocultamentos, sem vetos. É a celebração da transparência da verdade de uma nação que vem trilhando um caminho da democracia.

Cabo Verde deve render homenagens a mulheres e homens que lutaram pela revelação da verdade histórica. O direito à verdade é tão sagrado quanto o direito de famílias de prantearem pelos seus entes queridos. Reverencio os que lutaram contra a truculência ilegal do Estado policialesco português-colonialista-PIDESTE e também reconheço e valorizo os pactos políticos que levaram à redemocratização pós-independência.

Parece bom, mas é a esquizofrenia histórica se fingindo de dialética. Se é mesmo uma história “sem ocultamentos”, então a verdade sobre alguns tratados como defensores da democracia têm de ser devidamente caracterizados. Atenção! Nada, nada mesmo, justifica que uma pessoa, mesmo sendo pai do Presidente da República tenha resolvido “fazer justiça com as próprias mãos” e nada acontecer de punível…! Condenar esse expediente, no entanto, não muda a convicção daqueles que queriam um regime verdadeiramente democrático. E, em nome disso, também, NÃO mataram. Se a inocência não era um limite para os torturadores e agentes dos porões, ou daqueles que policialescamente herdaram o processo de tortura, sim, policialescamente, porque um capitão da Polícia Salazarista chicoteava quem não lhe obedecia salazaristicamente, em Angola, foi, por acaso ( ? ) , Chefe da Polícia de Cabo Verde, pós-independência de PP, em 1975, limite para muitos daqueles militantes que nunca quiseram aparecer ? A memória de TOI DE FORNO, de Soncent, responde…

A linguagem trai… Como é mesmo ? As palavras fazem sentido !!! A gramática existe não apenas para expor a ignorância do JMN mas, também, é um instrumento para aclarar pensamentos.

Sabem os gramáticos que a conjunção aditiva “e” pode ser empregada como conjunção adversativa, pode valer por um “mas”, a exemplo do que faz JMN. Sua fala pode ser reescrita, sem que se mude o sentido do que disse se substituir o “se” por “mas”.

Resta evidente em sua peroração a existência de uma contradição de atos políticos que levaram à redemocratização. Ao optar por esse discurso, ele se revela e se trai também na esfera da linguagem. Ele se revela ao admitir que entende a Lei como algo que caminhou no sentido contrário aos interesses daqueles supostos heróis “que lutaram contra a truculência” (a data onde a truculência começou, não interessa !, pois truculência é truculência, tanto vindo da esquerda quanto da direita, em qualquer época …). Mas ele também se trai ao assumir que, satisfeita a visão de mundo, certamente não se alcançariam os “pactos políticos que levaram à redemocratização”. Vale dizer, por dedução lógica inescapável: se a Lei era incompatível com aquela situação, era incompatível com a Lei de hoje.

Não posso fazer nada: eu opero com categorias matematicamente lógicas, dentro dos conceitos da lógica formal wittegensteiniana, que é bem provável que ele desconheça … Eu me nego a me deixar enrolar pela retórica oca, pela grandiloquência do… ocultamento!

A retórica da República Santiaguense emprestou um coquetel de figuras de linguagem ao PM (PM = Prime Minister) que afirma que a ignorância sobre a história não resolve. Pelo contrário, mantém latentes mágoas e rancores. A desinformação não ajuda a apaziguar.

CABO VERDE merece a verdade !

As novas gerações merecem a verdade. Merecem a verdade factual também aqueles que lutaram sem pegar em armas. CABO VERDE não pode se furtar a conhecer a totalidade de sua história e não aquela ‘oficializada’ pela República Corporativa da Santiago. Nunca pode existir uma história sem voz.

Perfeito! Por definição, toda a verdade tem de ser contada, também a das vítimas. À diferença do que dizem os peaigecistas, aceito, sim, pontos de vista diferentes dos meus. Desde que se apontem as falhas lógicas ou as falsidades deste texto.

 

Nova Friburgo, 20/5/12

 

V.Koenig

 

 

  1. Manel de Bia

    Ho senhor bocê escrevê modo nôs gente ta percebê. Paquê tanta complicaçon!

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