Sem abrigos: a esmola e a rua como alternativa à nada

24/05/2013 00:46 - Modificado em 24/05/2013 00:54
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pedintesSão muitos os casos de pessoas desamparadas na cidade do Mindelo. Um problema que não escolhe rosto ou idade, mas que atinge cada vez mais pessoas da terceira idade e também jovens e adolescentes. Abandonadas à sua sorte, muitas preferem passar o dia a deambular pelas ruas e só regressar à noite para dormir em casa se as tiverem.

 

No caso dos idosos, não existindo nenhuma lei que os proteja de facto, os casos de abandono são cada vez mais recorrentes. Situação que acontece perante o olhar passivo da sociedade e sem punições para quem não assume a responsabilidade de cuidar das pessoas que um dia cuidou deles. Em São Vicente, é no Lar de Idosos da Cruz Vermelha situado na Ribeirinha que dezenas de idosos encontram alguma protecção, mas o espaço é exíguo e não consegue dar resposta à tanta procura. Mas casos “mais graves” acontecem quando se depara com um número cada vez mais crescente de jovens pedintes, sobretudo na rua da Igreja de Nossa Senhora da Luz. Sem emprego, sem família, “abandonados”, assim se autodescrevem estes jovens em conversa com o NN.

 

Cientes deste facto, as instituições não-governamentais e as Igrejas têm vindo a assumir um papel preponderante no acompanhamento daqueles que não encontraram no recanto da família a mão amiga, o sustento e o carinho de que tanto necessitam nessa fase mais atribulada das próprias vidas. Para além disso, existem pessoas “de boa vontade” que sempre acabam por nos estender a mão, afirma Arminda do Rosário, mulher de 38 anos que todos os dias se encontra na porta da Igreja a “tentar sobreviver” como ela mesma diz.

 

“Um desfecho dramático”

 

“Anos a batalhar por uma vida para terminar assim. Um desfecho dramático”, assim se auto-caracteriza a Dona Emiliana Silva, de 73 anos de idade. Em desabafo, diz que hoje é uma mulher triste, porque se sente sozinha. Natural de Santo Antão, veio para São Vicente há mais de 20 anos, deixando os 6 filhos na zona de Alto Mira, concelho do Porto Novo. Perante o descaso dos filhos, conta que resolveu mudar-se para a ilha do Monte Cara para junto de uma sobrinha. Mas logo viu que as condições também não eram as melhores. Todos os dias de manhã sai de casa e percorre as ruas da cidade. Uma rotina que ela considera um consolo para a sua solidão, porque é “uma das formas de ver gente”.

 

“O amor é mais do que dar, o amor é dar e receber. Há muito tempo que não sinto isso vindo dos outros”, desabafa.

 

Da mesma forma vive Inês Gertrudes. Já não sabe dizer quantos anos tem, mas afirma com fervor que quanto à história da sua vida sabe-a de cor. Após a morte dos seus 2 filhos, hoje partilha a casa com os seus 4 netos; ela vive no rés-do-chão e os netos no andar de cima. No entanto, conta que raras vezes os vê.

 

“Gosto de conviver com gente, de ver as pessoas, de conversar, mas ninguém quer conversar comigo. Todos os dias saio de casa e vou sentar-me à porta da Igreja. Sempre vejo gente e sinto-me menos só. À noite regresso a casa para ir dormir. Durmo com um rádio, que é a minha única companhia”, conta.

 

“Prefiro a rua ao inferno do lar”

 

Paulo Silva, jovem de dezoito anos, percorre todos os dias as ruas do Mindelo. De balde em punho, à procura de um meio para se sustentar. “Lavo carros quando aparecem, outras vezes peço ajuda a quem passa. Durmo onde calhar”, conta.

 

“Vivo um dia de cada vez. Prefiro não traçar objetivos, porque parece que a vida se fechou para mim. Nada serve. Prefiro não pensar muito, rir de quem passa, mandar bocas e não me martirizar com a minha realidade”, descreve Evandro Monteiro, jovem de 22 anos.

 

É assim a vida de quem tem de viver com tão pouco. Um olhar na primeira pessoa de quem diz não ter alternativas senão as ruas e as esmolas.

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