Arranque tímido do Facebook reflecte receios sobre negócio da rede social

21/05/2012 00:05 - Modificado em 20/05/2012 17:51
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A estreia do Facebook em bolsa, a mais aguardada da década, teve um momento de suspense imprevisto: o grande volume de ordens de transacção deu problemas ao sistema do Nasdaq e a entrada das acções, marcada para as 11h em Nova Iorque (16h em Lisboa), atrasou-se quase 30 minutos. Era o último de vários sinais a fazerem crer que os valores iam disparar.

 

As acções, porém, começaram a ser trocadas nos 42 dólares e fecharam o dia nos 38, 23 dólares – apenas cêntimos acima dos 38 dólares que foi o preço por acção fixado pelo Facebook para a oferta pública de venda. Ao longo da sessão, houve vários momentos em que as acções rondaram os 38 dólares e só a reacção dos bancos envolvidos na operação – entre os quais o Morgan Stanley, o JP Morgan e a Goldman Sachs – impediu um deslize para baixo desse patamar.

A operação bate o recorde para uma empresa tecnológica e é uma das maiores de sempre em todo o mundo. Mas o desempenho no primeiro dia ficou aquém do esperado e empalidece face ao que outras tecnológicas bem mais pequenas conseguiram no passado.

Em Maio, a rede social LinkedIn (focada em contactos profissionais e então com 100 milhões de utilizadores, muito abaixo dos 900 milhões do Facebook) disparou 107% no primeiro dia em bolsa, fazendo soar os alarmes de uma bolha. Em Novembro, o site de descontos Groupon valorizou 30% no primeiro dia (entretanto, a cotação desceu para metade). Na famosa entrada em bolsa de 2004, o Google viu o preço das acções aumentar 18% na primeira sessão (o motor de busca conseguiu então uma valorização de 18 mil milhões).

Números compilados pela agência Bloomberg mostram que a valorização média das 67 empresas americanas que entraram em bolsa ao longo do último ano foi de 7,2% no primeiro dia.

Mesmo que tenha deixado desapontados os que esperavam ganhar fortunas nas primeiras horas de transacções, a operação foi um enorme sucesso para o Facebook, que vendeu pouco mais de 15% da empresa, encaixou 16 mil milhões de dólares, conseguiu uma valorização de 104 mil milhões — cerca de mil vezes mais do que as receitas dos últimos 12 meses. E é precisamente esta valorização que os analistas — ontem e ao longo das semanas anteriores — frisaram que a equipa liderada por Mark Zuckerberg, de 28 anos, tem agora de justificar.

Missão não é estar em bolsa

Um Zuckerberg visivelmente nervoso esforçou-se por desvalorizar a entrada em bolsa e frisar que o importante para a empresa é continuar com o objectivo de estabelecer relações online. “A nossa missão não é ser uma empresa cotada. A nossa missão é tornar o mundo mais aberto e ligado”, afirmou Zuckerberg, ainda antes do início da sessão, filmado em directo para todo o mundo a partir dos jardins da empresa, em Silicon Valley, e aplaudido por largas centenas de funcionários (muitos dos quais ficaram ontem milionários). Depois, tocou simbolicamente a campainha que marcou o arranque da sessão no Nasdaq.

A entrada tépida em bolsa que depois se seguiu reflectiu os receios de que o Facebook possa não conseguir rentabilizar o suficiente a sua gigantesca massa de utilizadores. A empresa, porém, já é rentável e tem vindo a crescer. Registou no ano passado mil milhões de dólares de lucros, a partir de 3711 milhões em receitas — mais 65% do que os ganhos obtidos em 2010, quando os lucros já tinham sido 2,5 vezes maiores do que no ano anterior.

No primeiro trimestre de 2012, contudo, o Facebook comunicou uma queda de 12% nos lucros face ao trimestre anterior — foi o primeiro recuo em dois anos, provocado por um aumento de despesas. As vendas de publicidade continuaram a crescer, embora tenham sofrido um abrandamento.

Os ganhos do Facebook vêm sobretudo de anúncios, mas também de compras feitas pelos utilizadores em aplicações e jogos (como o FarmVille). As receitas são ainda pequenas quando comparadas com alguns dos grandes rivais no mercado publicitário: em 2011, o Google facturou 38 mil milhões e o Yahoo (um portal em declínio) conseguiu quase cinco mil milhões de dólares.

Nos documentos entregues ao regulador americano, os próprios executivos do Facebook admitiram ter desafios sérios pela frente. A transição dos utilizadores para smartphones e tablets reduziu o número de anúncios mostrados. “Se os utilizadores acederem cada vez mais aos produtos móveis do Facebook”, escreveu a empresa, “e se nós não formos capazes de implementar com sucesso estratégias de rentabilização dos nossos utilizadores móveis, ou se incorrermos em despesas excessivas neste esforço, o nosso desempenho financeiro e a nossa capacidade para aumentar as receitas serão afectados negativamente”.A compra de acções é também um voto de confiança em Mark Zuckerberg, que tem mostrado ser um gestor pouco convencional. O fundador detém 28% das acções, que representam 56% dos votos. Tem ainda poderes especiais, como a possibilidade de, em algumas circunstâncias, nomear um sucessor. Em Abril, a compra do serviço de partilha de fotografias Instagram — que não tem qualquer receita — por mil milhões foi decidida apenas por Zuckerberg, sem consultar o conselho de administração.

A falta de entusiasmo com as acções do Facebook acabou por contagiar outras empresas de Internet. O Nasdaq esteve toda a sessão no vermelho e o LinkedIn, o Groupon e a Zynga (a criadora do FarmVille) — as três entraram em bolsa este ano — fecharam com perdas.

 

Publico.pt

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