Desenhadores do Mindelo: “ somos os únicos profissionais que não têm direito a trabalhar”

8/05/2013 01:17 - Modificado em 8/05/2013 01:17

arquitetura3Os desenhadores projectistas reclamam a falta de corpo jurídico que dê força à profissão e legitimidade para assumirem “oficialmente” as suas funções e os trabalhos desempenhados. Por conta disso, dizem-se explorados pela classe de arquitectos em função na cidade do Mindelo que, para além de “sonegarem os valores devidos” pelos projectos executados, aplicam valores demasiado altos aos proprietários de terrenos para a execução desses projectos. A Ordem dos Arquitectos (OA), por seu lado, caracteriza essa concorrência de desleal e admite que uma possível parceria entre estas duas classes e instituições possa ser uma solução para regularizar o problema.

Com mais de 30 anos a executar projectos de arquitectura no Mindelo, a classe de desenhadores da cidade reivindica uma posição mais interventiva por parte do poder legislativo de forma a regulamentar o exercício da profissão no país. Em causa estão projectos executados sem que conste a assinatura desses profissionais, salários e horas extraordinárias por receber e a falta de uma Ordem de Desenhadores que defenda os interesses da classe.

“Tenho 37 anos de trabalho e a nossa vida profissional sempre andou à volta da profissão que exercemos. Temos desenhadores aqui com formação, com carteira profissional, com diploma e certificado. O egoísmo está é na lei, porque somos os únicos profissionais que não têm direito a trabalhar”, explica um dos desenhadores da Câmara Municipal de São Vicente (CMSV), Fernando do Rosário, lembrando que em países como Portugal consegue-se “trabalhar sem problemas”, mas que em Cabo Verde o mesmo já não é possível.

A maioria dos arquitectos não cria

Nelson Rocha, antigo desenhador projectista, numa altura em que estudava construção civil no antigo Instituto Superior de Engenharia e Ciências do Mar (ISECMAR) diz que é “ injusto, porque a grande maioria dos arquitectos em Cabo Verde não está a criar, pois têm os desenhadores a fazer o trabalho por eles”. O mesmo adverte para a questão do “desnivelamento” em termos de compensação salarial, exemplificando casos em que já recebeu cerca de sete a 10 mil escudos no máximo para a execução de um projecto, enquanto que, no processo inverso, “quando se resolve criar um projecto por conta própria, cobram-te cerca de 50 mil escudos por essa assinatura. “Já cheguei a fazer projectos de cerca de 300 contos e pagaram-me 7 mil escudos pelo mesmo”, adianta. À semelhança de Rocha, conta um outro desenhador, Aguinaldo Rodrigues, que “não há desenhadores que trabalhem” na cidade do Mindelo “e que tenham o próprio ordenado actualizado em menos de 3 meses”, lembrando que “muitos deles facturam à custa dos desenhadores que trabalham por eles”.

“Falta uma Ordem dos Desenhadores para defender interesses da profissão”

As irregularidades existentes no exercício da profissão devem-se à falta “de uma Ordem de Desenhadores” em Cabo Verde, sublinha Helena Matos, uma das desenhadoras da CMSV, esclarecendo que “nós somos desenhadores com experiência e com capacidades para projectar quase ao mesmo nível que os arquitectos. Agora, nós não assinamos porque não há uma classe de desenhadores organizada, a lei não nos permite formar essa classe”. Na mesma linha Rodrigues que avança que “São Vicente precisa de uma Associação de desenhadores e de um suporte jurídico para defender os direitos” desses profissionais, “porque a classe tem sido a parte mais vulnerável no meio de todo este sistema”.

Posição da OA

Sobre esta matéria, o presidente da Delegação Regional Norte da OA, Evandro Matos, defende que deve haver “uma parceria, mas a concepção dos projectos deve ser feita pelos arquitectos (…) e não pelo desenhador que concebe trabalhos, sem qualidade nenhuma” para depois os mesmos serem assinados pelos arquitectos. Avança ainda o presidente que “para combater esse mal, as instituições têm que trabalhar juntas: a Ordem, o próprio arquitecto, as Câmaras Municipais e o Ministério das Finanças, tornando legal o processo de aprovação de projectos” para que possa ser possível “delegar competências a quem deve fazer projectos e aprová-los e controlar o exercício da profissão” para que se possa “acabar com este vício, com este mal que tem vindo a afectar muito a ilha de São Vicente”.

Acrescenta Helena Matos que “deveria haver um limite para os desenhadores projectistas poderem fazer projectos – número de pisos, área – e assumirem o próprio trabalho e os arquitectos terem a própria área específica, talvez com projectos de maior envergadura”.

  1. Mario Sanches

    Sou plenamente de acordo quanto a sugestao de H. Matos no refere a certa limitacao em termos de área, num. de pisos e outros parametros necessários tais com de anos de experiencia, formacao, para que perfeitamente esses agententes proficionais possam exercer legalmente, contribuiem aos impostos e mais.
    Se nao, seria um desperdicio estar o Governo a apostar e falar tanto em emprendedorismo, formacao proficional nessa área e por fim vir a ser explorado pelos outros,

  2. DOS BONS

    MAIORIA DOS ARQUITECTOS QUE NÃO TEM QUALIDADE E CAPACIDADE DE PROJECTAR E APROVAR PROJECTOS DOS DESENHADORES COM VASTA ESPERIENCIA NA AREA.
    E OS DESENHADORES AMAN ESSA PROFIÇÃO ENQUANTO OS ARQUITECTOS FAZEM POR DINHEIRO………AINDA HA MAIS.

  3. Mario Sanches

    Ao meu ver, trata-se de unica classe proficional que sofre persiguicao no pais e sem nenhum suporte juridico ou instituicional, contrariamente dos Electricistas, Mecanicos, Informaticos, Contabilistas, Solicitadores, Enfermeiros etc…
    Por isso Maltas do Mindelo, o meu maior apelos é que continuem com vosso protesto e fundamental a criacao de Ordem, solicitando debates principalmente junto ao Depotados da Nacao para que essa classe seja protegido em termos profissional e carreira.

  4. Opinião

    Os arquitectos estão a reclamar e a criar muita dificuldade e burocracia aos desenhadores e estudantes desta área porque querem continuar a ganhar sozinhos, explorando tanto a população quanto aos seus estagiários e colaboradores com misérias enquanto eles ficam com o grosso do dinheiro de um projecto, que muitas vezes é feita pelos estagiários e assinados pelos arquitectos. Temos muitos estudantes criativos com capacidade que não têm tido oportunidade de “trabalho”…

  5. Opinião

    Os arquitectos não parecem estar interessados em desenvolver parcerias porque parecem todos egoistas. Porque antes quando terminavam a sua formação chegavam ao país e eram logo aceites na ordem sem exigência de estágios e começavam a trabalhar e a ganhar dinheiro e agora estão a exigir 2 anos de estágio para os licenciados, tanto formados no país como no exterior, para que possam estar inscritos na ordem e trabalharem honestamente? Acham justo depois de estudar 5 anos ter mais 2 de estágio?

  6. Paulo Gomes

    É por culpa dos arquitectos que temos os problemas nos diverços bairros em Cabo Verde.
    Por exemplo, a zona de Vila Nova em S. Vicente, se houver um incendio os carros dos bombeiros não entra, se uma pessoa estiver em vias de ser atacada não tem como correr, ruas desalinhadas, estreitas, etc.
    Em fim, temos exemplos de trabalhos feitos pelos arquitectos que são uma vergonha.

  7. LM

    Vocês que me desculpem, mas a qualidade da arquitetura não reside em si e só por si só no modelo do projeto de arquitetura. E outra coisa, sem desprezar os desenhadores que pode ter, em pleno suas razoes de queixa, apesar de fazer uns belos modelos não significa que ela serve para o seu contexto onde vai se implantar, pois a vossa capacidade, ou de maioria nem sabe a definição do “contexto”, entre outras preocupações que se deve ter para fazer uma boa arquitectura.

  8. lima

    Por causa de desenhadores e da ma gestão de capacidade dos mesmos das câmaras municipais, que são vicente e outras ilhas estão numa qualidade péssima a nivel de urbanização, sem falar nas falcatruas nas câmaras municipais para aprovarem os trabalhos de pessoas que sabem utilizar softwares de auxilio mas que não têm nenhuma noção de estetica e cumprimento de leis.
    Estou estudando arquitectura para que? Para que pessoas sem nenhuma formação previa venha exercer o meu trabalho e de forma péssima?

  9. lima

    A vossa classe merece mais respeito, sem dúvida, mas não pensem que têm o direito de de executarem projectos que depois são aprovados por razões monetárias e depois quem são os más vistos são os arquitectos.
    Reclamem pelos vossos direitos, sem dúvida, mas vejam como vocês e algum colegas vossos armados em arquitectos têm dixado as nossas cidades, uma confusão e uma perturbação visual.

  10. ...

    Imaginem há pessoas com seus edificios já confeccionados, em que no decorrer da construcao alterou uma coisa ou outra e apóis construido, quer actualizar seu projecto em conformidade com construcao realizada, veio solicitando um Desenhador para o efeito e esse edificio já nao tem nada mais que c o n c e b e r (termo crítico do Arquitecto), entao tem algo de responsabilidade em termos de assinatura por parte do Arquitecto?

  11. ...

    Da forma como o LIMA comentou “para qué anda estudar arquitectura” falou bem, mas baseando noutro comentário em que falou na definicao de certos limites em termos de área, num. de pisos e outros parametros necessários tais como anos de experiencia, habilitacao e formacao, ou mesmo que venha a implimentar texte de certificacao por parte da Ordem de Arq. ou formacao ao complimento (igual por exemplo aos professores do EBI), de certeza ajudaria o país, a classe e os proprios Arquitectos.

  12. ...

    Em continuacao do anterior, enquanto ao LIMA, a classe e sociedade de modo geral, espera dele na concepcao de Projectos Avancados e sem Limitacoes, degnificando assim a tao bela classe dos Aquitectos.

  13. Opinião

    A má construção que vemos nos bairros é devido não só da má fiscalização da Câmara Municipal que não estabelece um bom plano prévio para as periferias, o atraso na atribuição dos terrenos que levam as pessoas a fazerem casas clandestinas, mas também pelo elevado preço dos projectos que muita gente não consegue pagar. Lembrem-se que somos um país pobre e a maioria não tem condições de pagar valores exorbitantes por um simples projecto para uma moradia. Será que a culpa é mesmo dos desenhadores?

  14. Opinião

    É claro que os arquitectos têm o direito de reivindicar, pois estudaram muito para serem “roubados” por quem não possui as suas capacidades e direitos para tal, mas atribuamos a culpa a cada um de direito. Que cada um faça o seu trabalho, se sentem à mesa e estejam disponíveis a entrar em acordo para a resolução desses problemas. Oh ORDEM DOS ARQUITECTOS vê bem se os 2 anos de estágio após a conclusão dos 5 anos licenciatura em arquitectura não é demais. Deixe os novos ganharem a sua vida também

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