Valores

2/05/2013 01:06 - Modificado em 2/05/2013 01:06

valoresNão tenho encontrado tempo para escrever e nem tenho estado com disposição para tal. Mas de forma rápida, sem rodeios, sem preâmbulos e directo ao assunto vou tentar divagar um pouco sobre a venda dos valores éticos, da moralidade, da honestidade, da dignidade humana e dos princípios deontológicos, tudo em troca de ganância, de dinheiro fácil, da construção de um bom património, carros de luxo, imóveis caríssimos, viagens para o mundo fora, estar presente em todos os eventos, exibir roupas de marcas e caras em jantares… pois nesta terra quem não consegue ter ou assegurar estas futilidades, não é visto como um ser humano normal. Nos tempos actuais, de materialismo exacerbado e competitividade a mil, a maioria esmagadora dos relacionamentos se tornaram escadas de ascensão social. As pessoas se juntam mais para melhorar sua condição social do que propriamente por motivos amorosos. E se tratando de pessoas de classes sociais diferentes, esta expressão maioria, se torna totalidade. Em bom português, prostituição pura e simples. De repente sofremos atentados jornalísticos (puro terrorismo – bombas que se explodem do nada) sem qualquer aviso prévio para nos preparar. É triste e lastimável, difícil de se aceitar, ver jovens quadros presos por tráfico de estupefacientes, por lavagem de capitais, por desvio de fundos alheios (peculato), a serem facilmente corrompidos, tudo porque têm pressas em conseguir as coisas que só com muitos anos de trabalho honesto é que se consegue, caso um dia isso venha a acontecer. Mas todos são unânimes em afirmar que a sociedade está despida de valores, e partilho da mesma opinião, mas só que temos de procurar quem foram os primeiros a descoser as costuras desta nossa sociedade. Quem é o culpado para esta depilação de valores, como se tratasse de uma mulher que entra num salão de beleza cheia de pelos e sai de lá lisinha e macia? Vou responder e muitos podem achar um absurdo, mas para mim não restam dúvidas que são os nossos políticos, os vários governantes desta terra ao longo dos anos, os maiores culpados e responsáveis pela actual situação em que encontramos encalhados, pois vejamos: eles são os primeiros a esfregarem o luxo na cara da pobreza, o que cria uma certa inveja, desperta uma certa dose de ambição doentia e leva muitas criaturas a seguirem por caminhos sem saída e sem volta, para conseguirem atingir e manter o status social igual ou equiparado. A política deixou de ser vista como vocação, como um meio para se lutar por mais igualdade social, como um acto de cidadania, mas sim como um trampolim de promoção social. Não é por acaso que qualquer jovem mal formado, mal preparado, milita-se num partido e carrega com determinação e perseverança a pesada bandeira do seu partido. A sensação de impunidade está no ar que respiramos, a ideia que a justiça é para os coitados que não têm recursos para pagarem um bom advogado é evidente, e esta falsa impressão tem levado muitos pelas cheias de libertinagem. Só que as pessoas esquecem, quem são aqueles que regulamentam, regulam e controlam o sistema, e que existem diplomas legislativos que lhes protegem, que lhes afastam dos tribunais e que lhes diferenciam de um cidadão normal. Fico perplexo, para não dizer outra coisa, em saber que até na justiça há discriminação, e fico pasmo em saber que há leis e acordos entre os partidos políticos que impeçam que alguns sejam responsabilizados, julgados e condenados pelos actos menos lícitos, o que lhes transformam em falsos moralistas. A constituição, o código civil, o penal deveriam servir da mesma forma para todos, para não dizer que deveriam ser aplicados de forma mais rigorosa e pesada diante de ilicitudes cometidas por pessoas com cargos de maior responsabilidade. Este será a minha proposta, quando um dia entrar na casa parlamentar, pois acho que somos todos iguais, que na justiça não pode haver discriminação e que não quero de forma alguma fugir das minhas responsabilidades e dos meus actos.

  1. Carlos Silva - Ralão

    O autor deste texto/matéria está de parabéns, falou, disse e escreveu bem. Tudo o que vivemos hoje em dia de bom e mal, é da culpa dos políticos, é claro que o que está em evidência aqui neste momento é um dos maiores males sociais, que é a perda de valores, perdendo este, perde-se a a formação de uma boa sociedade, e claro, de um país. Gostaria de me encontrar com o autor deste texto para falarmos mais um pouco sobre este assunto, deixo aqui o meu email para contato: ralaosilva@hotmail.com

  2. Neves

    O texto retrata um tema muito pertinente nos dias de hoje, e o autor fez de facto uma excelente análise, o qual eu subscrevo na sua plenitude. A minha opinião aqui é de dar um complemento a sua ideia, no sentido de reforçar o debate. Eu quando falo em crise de valores, gosto de levar o assunto ao nível mundial, isto porque a problemática dos valores na sociedade cabo-verdiana resulta da importação dos hábitos, tendências e modelos de vida politica, económica e social implementado nos países da Europa ocidental e EUA, dos quais Cabo Verde mantém relações externas.
    Derivado às condições naturais e da pobreza que Cabo Verde apresenta, o país fica exposto ao exterior. De notar que tudo o que consumimos vem de lá, desde produtos alimentares, máquinas e equipamentos, sistema de educação, legislações, programas televisivos, cinema, etc. Os sucessivos governos (classe política) sempre posicionaram a mercê das “imposições” vindas do exterior, em troca das ajudas financeiras. E tudo isto pode ser resumido em apenas uma palavra – NEOCOLONIALISMO.
    De notar também que os padrões modernos de vida são conhecidos como o modelo de democracia criado e adoptado nos EUA e no último meio século disseminado pelo mundo todo, como sendo o modelo perfeito. Muitos países grandes e poderosos, de rica história e cultura como por exemplo: China, índia, japão, Egipto, Arábia Saudita, entre outros, não têm conseguido opor à esta tendência forte de imposição de valores modernos ocidentais. E imagina agora o nosso pequeno, minúsculo e vulnerável Cabo Verde.
    Um dos fenómenos do modelo dos EUA que tem contribuindo para a crise de valores nos últimos anos, é sem dúvida nenhuma o movimento feminista de empoderamento das mulheres e fortemente propagado nos países pobres. E em Cabo Verde como não seria de esperar tem assimilando e implementado este fenómeno com muita força.

  3. Carlos Silva - Ralão

    Isso mesmo, NEOCOLONIALISMO, infelizmente a dissiminação deste fenômeno na nossa sociedade, contribui para que eles criem uma mente colonizada no nosso povo, de forma a que este valorize apenas o que vem de fora, e o pior, desvalorizando o que temos dentro. Não é a toa que as cadeia de televisão europeias e dos EUA têm programas para destruição da imagem dos países Africanos e de outros continentes, como forma de mostrar aos povos destes países que o país deles não tem nada a os oferecer.

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