Em Milão votam Berlusconi e Monti e podem decidir-se as eleições italianas

25/02/2013 00:45 - Modificado em 25/02/2013 00:45
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Nevou o dia quase todo na cidade de Silvio Berlusconi e de Mario Monti. Milão viu nascer ambos mas não promete tratar muito bem nas urnas nenhum dos dois. A Lombardia, região de que Milão é capital, é o prémio gordo das legislativas que segunda-feira terminam em Itália — nas sondagens, centro-esquerda e centro-direita surgiam empatados.

 

O frio e a neve não fizeram diminuir a participação no primeiro dia de ida às urnas em Milão. Mesmo que as ruas da cidade tenham permanecido semidesertas durante a manhã e grande parte da tarde. Na Piazza del Duomo, diante da imponente catedral, poucos eram os turistas que ousavam tirar as máquinas fotográficas dos bolsos.

 

A meio da tarde, a maioria dos que por ali passavam falava italiano e tinha cachecóis ao pescoço. Milaneses, adeptos do Inter ou do Milan, lombardos da montanha e da cidade. Dez milhões de habitantes; um quarto do Produto Interno Bruto e um dos quatro motores da Europa.

 

O dia era de eleições, mas em Milão a noite era de derby: Inter-AC Milan, com os olhos dos adeptos em San Siro todos postos em Mario Balotelli, o reforço que o Milan foi buscar ao Manchester City no fim de Janeiro. A tempo da campanha, a tempo de Berlusconi, presidente do Milan, ser acusado de voltar a misturar negócios e política.

 

O momento de dizer chega

 

Da Piazza del Duomo ao Giuseppe Parini, um dos liceus antigos que sobrevivem em Milão, são uns 15 minutos a pé, atravessando a Piazza Scala, com o teatro e a estátua de Leonardo da Vinci ao centro.

 

Paolo estudou no Giuseppe Parini e gosta de voltar aqui a cada eleição. Veio, como habitualmente, em família. Ele, a mulher Giovanna e a filha Lorenza. “Penso que estas eleições são muito importantes”, diz o sociólogo de cabelo e bigode castanho muito claro. “Eu também”, diz a filha, estudante de Belas Artes. “É aqui que se decide que destino levará este país”, assegura o pai, sob o olhar atento de Lorenza e enquanto Giovanna assenta com a cabeça em sinal de acordo. “Terá de ser distinto do que foi com Berlusconi, isso seguramente”, continua Paolo.

 

Toda a família votou centro-esquerda. “Votei a pensar numa solução de estabilidade, de governação. Não escolhi o voto de protesto, mesmo havendo tantos motivos para isso”, justifica Paolo, que deu o seu voto aos candidatos do Partido Democrático (centro-esquerda), de Bersani, que se espera venha a formar governo.

 

Valeria, de 73 anos, demorou pouco dentro da sala de aulas onde funciona a sua secção, mesmo tendo levado para a cabine de voto os três enormes boletins: o cor-de-rosa para a Câmara dos Deputados, o amarelo para o Senado e o verde para as eleições regionais. “Desta vez espero uma mudança verdadeira, principalmente na região”, acrescenta, antes de fugir, veloz, a caminho do carro estacionado a poucos metros e já coberto por uma fina capa branca.

 

Clemente tem a idade de Valeria, com 30 anos passados a trabalhar em fábricas argentinas, mas tem um pouco mais de tempo e vontade para explicar o seu voto. “Beppe Grillo. É preciso mudar, os políticos estão velhos e os candidatos de Grillo são jovens. Há um momento em que é preciso dizer chega”, exclama. O comediante Grillo, que Clemente diz “ouvir há muito” e com o qual afirma “concordar muitas vezes”, não é candidato mas lidera o Movimento 5 Estrelas, formado por listas de cidadãos escolhidos em votações online e sem experiência partidária.

 

Tudo menos a esquerda

 

Carlo, 58 anos, “há 38 anos de direita”, discorda. Ao peito traz um pin do Povo da Liberdade (PdL) de Berlusconi com o nome do líder da direita escrito a azul, nas mãos leva um envelope A4 onde vai apontando os dados da participação. Votou PdL, ele que em todas as eleições é observador pelo partido de Berlusconi.

 

Mas nem Carlo quer ver Berlusconi de novo à frente de um governo. “Se o PdL vencer será certamente Alfano a assumir o poder”, afirma, com razão. Angelino Alfano é o secretário-geral do PdL; Berlusconi decidiu ir a jogo uma última vez, mas num cenário em que a aliança entre o PdL e a Liga Norte conseguissem votos para governar (precisariam sempre de uma coligação mais alargada) é certo que Alfano a lideraria.

 

“Monti fez-nos muito mal, mas por mim até com Monti o PdL se pode aliar. Tudo menos a esquerda…”, defende Carlo. Monti, que nos últimos 14 meses foi primeiro-ministro sem nunca ter ido a votos, à frente de um governo de “emergência nacional” com mandato para travar a crise, concorre apoiado por um conjunto de partidos do centro.

 

100 mil indecisos

 

Federico demorou-se diante dos enormes cartazes com as listas dos candidatos: 24 listas para o Senado, 20 para a Câmara dos Deputados, 18 para os conselhos e a presidência da região. “Não é fácil, as alternativas são más”, justifica o arquitecto, com 28 anos e pouco trabalho. “Parecemos todos uns desesperados… Chegamos e ficamos a olhar, sem saber como decidir.” Ontem, num artigo no diário La Repubblica, o politólogo Ilvo Diamanti estima que 10% dos italianos decidem o seu voto no dia da ida às urnas.

 

Hoje, todos os votos serão importantes e é na contagem dos boletins da Lombardia que candidatos e comentadores se vão concentrar. Não há outra região com um prémio de maioria tão apetitoso. O centro económico, industrial e financeiro do país é também a sua zona mais populosa e isso faz com que 49 dos 315 lugares do Senado sejam escolhidos aqui. Ao contrário do que acontece na Câmara dos Deputados, onde os 55% automaticamente atribuídos ao partido vencedor são calculados em termos nacionais, na câmara alta do Parlamento os partidos recebem este prémio região a região.

 

Segundo estima Renato Mannheimer, especialista em sondagens que falou ao PÚBLICO na semana passada, o resultado final pode decidir-se por 100 mil votos de indecisos na Lombardia.

 

Até às 13h30 de domingo, nas oito secções do liceu Giuseppe Parini já tinham votado 21% a 25% dos eleitores, dentro da média habitual. Em todo o país, até às 19h00 votaram menos 2,5% do que em 2008 (46,69% para 49,16%), mas na Lombardia a participação era mais alta do que nas últimas eleições.

 

As urnas voltam a abrir segunda-feira para só se encerrarem às 15h (uma hora a menos em Lisboa). “As pessoas querem votar, não é o mau tempo que as vai fazer ficar em casa”, garante Carlo. “As pessoas sabem que têm de votar, querem votar e mudar as coisas.”

 

 

 

jn.pt

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