3. Por um novo conceito de cidade e pela revalorização da Pedra

8/05/2012 00:27 - Modificado em 8/05/2012 00:27

Na 2ª Parte deste artigo resumi algumas conclusões que apontam para o facto que o uso generalizado do alcatrão e do betão afecta o balanço radiativo e térmico entre o solo e a atmosfera. Estes dois materiais constituem, pois, factores importantes na formação do desconforto ambiental em zonas densamente urbanas. Mostrei que existem contraindicações importantes, que devem ser tomadas com muita seriedade para quem projecta o desenvolvimento de Cabo Verde, país quente e árido, mas não imune à ocorrência de tempestades ou chuvas torrenciais. Baseando em critérios puramente ambientais, concluí que a calçada é de longe a melhor solução no que concerne o conforto humano e ecológico.

A alguns a natureza prendou com petróleo a outros com rochas vulcânicas. Esta é das raras riquezas deste pobre país, Cabo Verde, todavia dificilmente transacionável nos mercados de matérias-primas e convertido em dólares. Mas esta riqueza proveniente das energias telúricas da nossa terra é uma característica intrinsecamente cabo-verdiana. O desenvolvimento de uma indústria nacional baseada na pedra para consumo interno e exportação não é de todo impossível e irrazoável. Pedro, tu és Pedra e com esta Pedra construirei a minha Igreja, é a mensagem que Cristo deixou a este apóstolo: construir a igreja a partir da Pedra, este objecto tomou desde este dia, um valor fundamental e fundacional na edificação da civilização cristã.

Porque o país precisa de valorizar o pouco que possui, poderia desenvolver a indústria do artesanato baseado nesta única matéria-prima que possui, a pedra. A valorização do que é genuinamente cabo-verdiano não pode ser uma vã intenção proferida nos discursos palacianos, mas tem que se transformar numa atitude. A pedra basáltica bem trabalhada, pode ser um distintivo de Cabo Verde. Concordo com o Dr. Arsénio de Pina que afirma que nesta área há empregos e artesãos que se podem criar. Não estamos a falar da pedra tosca mas da pedra trabalhada ‘made in Cabo verde’, exportável para mercados desenvolvidos.

A pedra é em muitos países, um material raro, e no mundo desenvolvido é bastante apreciada, entrando na categoria de produto de excelência. É importada em larga escala, e após ser trabalhada, é-lhe conferida um elevado valor acrescentado. A pedra tornou-se hoje um elemento importante no novo conceito de cidade em que a ecologia e o conforto são dois conceitos essenciais. As novas tendências pós-modernas rompem com o conceito de desenvolvimento económico e social desarticulado, onde o meio urbano, o ambiente e as atractividades carecem de qualidade. Assim, desde os anos 80 do séc. XX, a UE vem financiando programas de reabilitação dos espaços urbanos e de zonas degradadas em áreas nobres das cidades europeias. Em Portugal, este programa denomina-se Polis – Programa de Requalificação Urbana e Valorização Ambiental das Cidades Portuguesas financiado pelo do 3.o Quadro Comunitário de Apoio, é suportado pelo fundo europeu FEDER e pelo programa europeu de Iniciativa Comunitária INTERREG, tinha inicialmente como principal objectivo solucionar os problemas ambientais das cidades portuguesas. Hoje este programa ganhou uma nova dinâmica e a sua actuação inclui a salvaguarda da qualidade urbanística e arquitectónica dos espaços públicos e dos pólos urbanos, através de uma visão estratégica renovada e integrada do ambiente e do ordenamento do território. Este projecto permite a eleição para a requalificação de meios urbanos com importância estratégica para o desenvolvimento e tem como preocupação fulcral o ambiente das cidades.

Áreas pedonais (reservadas para peões) e espaços verdes, proibidos à circulação de veículos, estão a ganhar cada vez mais espaço nas cidades, permitem desenvolver novos conceitos de urbanismo. As cidades, onde se renovam e se revitalizam áreas em declínio, tornam-se mais vivas e amigas, e incentivam ao convívio e o intercâmbio entre pessoas, devido à concentração de actividades nobres: culturais, recreativas, desportivas e comerciais.

Os fãs do alcatrão ficarão surpresos ao saberem que nas áreas requalificadas implantam-se espaços pedonais onde substitui-se o alcatrão por pavimento estético em pedra trabalhada (similar à calçada portuguesa). O emprego da pedra ornamental, tem pois paradoxalmente um efeito moderno. A atitude que consiste em desvalorizar a pedra está pois em divergência ou contra-ciclo com algumas boas práticas e tendências no mundo, aparecendo assim como uma mera manifestação de uma doença infantil do desenvolvimento ou de um novo-riquismo ‘kitch’.

Já sei que ouvirei prontamente respostas dos zeladores e pontífices do progresso e de outros tantos afectos ao pensamento único, que não aceitam debates e vozes discordantes sobre os diferentes caminhos que levarão Cabo Verde ao progresso, pois para eles existe um único caminho e um só. Ao pôr-se em causa alguns sacrossantos conceitos de desenvolvimento baseados no alcatrão e no betão, está-se a ‘falar mal do bacalhau, no caso de Cabo Verde do atum’, ou a estorvar o progresso material do país, como dizem para espantar ‘bjon’.

Pensa-se que a pedra transmite uma certa sensação de subdesenvolvimento. Com o alcatrão (que não produzimos) sentimo-nos limpos, ‘clean’, ‘propre’, novos, modernos, ricos. Também como o tempo é dinheiro e a segurança é um princípio sagrado, as longas ligações devem ser feitas por estradas rápidas e auto-estradas alcatroadas. Nesta lógica, temos todo o direito de chegar depressa e em todo o conforto às praias da Baia das Gatas, obviamente gastando menos pneu e pastilhas de travões. E não é de excluir que um dia este percurso se efectue por túneis iluminados como na moderna Suíça, graças, talvez, a um generoso donativo de um país amigo.

Temos que reconhecer que os trabalhos de estrada tinham basicamente utilidade social, e como o seu nome indicava, destinavam-se a empregar mão-de-obra intensa, uma vez que era necessário empregar/apoiar o máximo de pessoas e famílias. As obras de calcetamento similares ao que se fazia até os anos 90, quase roçavam a escravatura, empregavam pedreiros experientes, mas baratos. Obras deste tipo são hoje custosas, ver proibitivas, pois a mão-de-obra actual e a sua disponibilidade são muito diferentes das do passado. Não será, pois, hoje possível calcetar, como antigamente, quilómetros de estradas, exclusivamente com o recurso a mão-de-obra intensa. Os custos de tais obras tendo como base o custo final da pedra e o custo actual da mão-de-obra ficariam muito dispendiosos. Assim longas estradas calcetadas, por exemplo em ilha como Santiago ou Sº Antão, parecem hoje difíceis de serem realizadas.

A questão da pedra parece assim uma questão anódina, mas que reveste de alguma seriedade num país em desenvolvimento, extremamente pobre e vulnerável, assim como totalmente dependente da ajuda externa. Usar indiscriminadamente e num ímpeto desenvolvimentista, o alcatrão, sem adequadamente pesar os prós e os contras de cada opção, é precipitar-se numa via pouco sustentável, pois não temos petróleo, mas em contrapartida rochas em abundância. Os custos da manutenção frequente de um pavimento de vários quilómetros, totalmente alcatroado têm que ser projectados no longo prazo, avaliando os riscos da sua rápida danificação (buracos frequentes, desgaste natural etc) e comparando com a manutenção de uma estrada em pedra: o preço final para um período longo (10 a 20 anos por exemplo) de uma estrada alcatroada poderá ficar, então, insustentável. Para além disso, como já disse não produzimos esta matéria derivada do petróleo.

Neste momento, a fazer-se fé naquilo que se lê nos jornais, a tendência é cobrir de indiscriminadamente de alcatrão, toda a calçada das nossas cidades e as estradas já existentes no nosso país, sejam elas boas ou más. Se partirmos de argumentos puramente economicistas, podemos, a priori, concordar com esta opção, e aceitar que seja mais rápido e barato construir novas estradas asfaltadas, pois nenhum argumento o mais ecologista possível pode escapar ao princípio desta realidade economicista. Todavia, não deixa de ser irresponsável destruir património construído, em quase um século, pelas mãos e engenho dos nossos pedreiros e o suor de milhares de homens. Assim cobrir uma bela estrada da Baía das Gatas ou a da ligação Porto-Corda-Povoação, assim como dezenas de boas estradas já existentes, muitas bem pavimentadas com pedra basáltica, por um manto de alcatrão, é inqualificável. Para mim esta atitude constitui um sacrilégio, uma aberração e um autêntico desprezo por obras que exigiram muito investimento (ajudas externas), suor e sacrifício de milhares de homens. Se ficasse assim tão barato e sendo tão lógico asfaltar directamente estradas, a pergunta que se coloca aos responsáveis da 1ª República, porque é que não o fizeram? Com atitudes de modernismo puramente levianas, estaremos a destruir mais outro património? Na minha opinião os nossos pedreiros, que adquiriram inegavelmente um ‘savoir-faire’ patente nos milhares de quilómetros de estradas calcetadas, construíram também ao longo do século XX, património. Sim senhor, os quilómetros de estradas calcetadas constituem um património. Ouviu IPAR!? Agora imaginemos que as Muralhas da China que datam de 221 a.C, este património chinês e universal, cujo comprimento total é de 8.850 km, construído com blocos de pedras de calcário, granito ou tijolos, a serem alcatroadas e/ou rebocadas com cimento, para o conforto de alguns? Qual seria a reacção da opinião pública internacional? Assim, duvido da prioridade e mesmo da possibilidade do alcatroamento da Estrada para a Baía das Gatas, assim como de outras ruas do centro das nossas cidades, quando há projectos mais prioritários, tal como a construção de novas estradas. Não se compreende assim o interesse em colocar um pavimento em asfalto, em cima de outro já calcetado e em bom estado, equivalendo à realizar uma segunda estrada sobre a mesma. Por este andar, não tardará que alguém pense em alcatroar a estrada Porto-Corda-Povoação, esse autêntico património em pedra construído pelos pedreiros santantonenses, se não é que já foi realizado. Para o comum dos cidadãos não seria uma má ideia, mas para os amigos da natureza desta ilha santuário, será de certeza uma muito má ideia.

É por causa de estas e de outras coisas, é que perguntamos onde para o IPAR e qual é a opinião desta instituição sobre o valor patrimonial das estradas em pedra já existentes, tais como as que exemplifiquei, assim como o dos inúmeros patrimónios que se deixou demolir ou chegar ao estado de ruinas nesses últimos 10 anos? Nenhuma?

Falando da cidade do Mindelo, diria que a política de generalização do alcatrão é uma via que não antevê a possibilidade de uma requalificação urbana no sentido da sua dignificação. Porque não substituir toda a calçada defeituosa por uma nova moderna e estética? Um plano de requalificação da cidade tem que passar forçosamente pela concepção de ruas pedonais, pavimentadas, não com alcatrão mas com calcetamento estético, que chamaria uma Calçada Crioula. Muitos se lembram da calçada que havia em torno do edifício da antiga Alfândega no Mindelo, que era uma calçada típica que conjugava elementos marinhos com motivos geométricos.

Mindelo é sem dúvida uma cidade expectacular, que pode, ser um concorrente sério, a nível mundial, entre as mais belas do mundo, (salvaguardando as devidas proporções, ou seja dentro da sua ‘divisão’), devido à sua baia e o ambiente particular, desde que bem cuidada, tratada e acarinhada. Uma requalificação da cidade exigiria, por exemplo, um calcetamento artístico generalizado. Mas isso são outras histórias.

De qualquer maneira, ou queremos andar para trás, ou eventualmente ficarmos estagnados no tempo e no espaço, ou queremos competir numa ‘divisão’ média, no clube competitivo de países em desenvolvimento médio. São opções, cada um com o seu custo. No primeiro caso não fazemos nada e esperamos pelo maná que cai do céu. No segundo caso, será preciso requalificar as cidades, e em especial a cidade do Mindelo e torna-la atractiva ao investimento e à fixação de pessoas e de ‘know-how’: melhorar a sua competitividade, reforçar o seu papel na organização do território, melhorar a qualidade de vida dos seus habitantes e desenvolver um conjunto de iniciativas locais com mérito do ponto de vista urbanístico e ambiental. Iniciativas apoiadas no conceito de Cidade e Ilha Verde (que enfatizem uma gestão ambiental, a re-introdução da água na ilha, a promoção de espaço verdes, a florestação do interior da ilha e o desenvolvimento de uma agricultura moderna e sustentável, embora alguns fiquem escandalizados quando se fale na agricultura em S. Vicente), a Cidade Digital (que dispõem de bons serviços de comunicação digital e que fomentem a cultura e o conhecimento), a Cidade do Conhecimento e do Entretenimento (dotadas de infraestruturas científicas e tecnológicas, espaços culturais, de aprendizagem artística e de espaços de diversão). Ou investem-se 250 milhões em betão para levantar de raiz uma cidade administrativa, re-alimentando a burocracia crescente num país cada vez mais centralizado (um investimento que considero surreal para um país assistido financeiramente e em que não há retorno económico evidente), ou redistribui-se este montante pelo país, em projectos estruturantes nas áreas de energia e água, na modernização da agricultura, na correcção torrencial, na construção de barragens, na re-qualificação das nossas cidades, nomeadamente, Mindelo, Praia, Santa- Maria, Porto Novo, Povoação, etc, dotando-as, inclusivamente, de boas infra-estruturas e dinamizando áreas como a educação, a cultura, o desporto etc. São opções com uma forte carga politico-ideológicas, mas também civilizacional.

A cidade do Mindelo precisa de um novo conceito, um autêntico programa Polis e do concurso de todos os seus filhos, para catapulta-la ao nível de uma grande cidade atlântica. O concurso de ideias e de investimento, de projectistas, de arquitectos-urbanos e de zonas costeiras seria importante. Este programa para Mindelo, para transformá-lo-ia de novo num dos motores económicos de Cabo Verde, num centro cultural e intelectual de excelência do arquipélago. Este é o sonho de todos os que se inquietam com o estado de decadência desta grande ilha cabo-verdiana e que adoptaram o projecto de Regionalização para Cabo Verde.

José Fortes Lopes

Bibliografia:

-Ambiente urbano e intervenção pública do Programa Polis;

www.apgeo.pt/files/docs/CD_X…/047.pdf

 -Programa Polis. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2012. [Consult. 2012-04-28]. Disponível na www: URL: http://www.infopedia.pt/$programa-polis.

Portugal política de cidades Polis xxi 1. Ambiçãowww.dgotdu.pt/pc/…/POLISXXI-apresentacao.pdf

-Portugal política de cidades polis xxi 1. ambição www.dgotdu.pt/pc/…/POLISXXI-apresentacao.pdf

-http://pt.wikipedia.org/wiki/Muralha_da_China

  1. Candido salomao

    pàra com os plàgios!! Bo escrita è horrivel e TOTALMENT SEM INTERESSE!!! DÀ MILHA!!!!!!!!!!!!

  2. antónio_damancio

    Esse falso candido salomão, é o mesmo pulu, usurpador de nomes, um traidor mindelense, formado em desinformação kgbista, à solda da Praia, pago para para atacar patriotas mindelenses na diáspora, que têm colocado Mindelo e a Regionalização e vários problemas que sofre esta ilha, vítima de políticas e de gentes e agentes sem escrúpulos, na agenda dos debates. Não é assim que vão fazer calar as vozes destes espíritos independentes

  3. Nenass

    Meu qerido amigo Josè, tenho a dizer-t 2 coisas: 1. lugar os teus textos transcritos são completamente utòpicos e sem aplicacao real no terreno, especialment numa terra POBRE DE RECURSOS financeiros como C.Verde. Em 2. lugar como nòs todos bem sabemos là de longe è fàcil escrever e palrar mas aki meu amigo onde a realidade è REAL,A ESTÒRIA È OUTRA. O qe tu escreves são apenas teorias e nada mais do qe isso. Numa palavra retòrica SEM APLICACÃO PRÀTICA!! Tira as lunetas e desce à terra…

  4. Nenass

    …porque jà tens idade para isso. E quanto aos teus seguidores não passam dum mancha bem piqnin de cavalinha na mar, ta esperà ser cumid pa um albacora…. Cabo Verde não è Angola. Acordem seus TANÀS!!

  5. frl

    Desmanchar, sem mais nem menos, uma estrada calcetada que é muito boa, e construir outra em alcatrão por cima só pode ser capricho de rico. Ou então é para beneficiar certas construtoras. Alcatrão sim, quando se faz uma estrada de raíz. Será que não há problemas mais urgentes para resolver na nossa terra? Ou será que o estado está a nadar em dinheiro (dinheiro dos outros). É preciso ter a consciência de que as ajudas que dão à nossa terra é dinheiro suado do trabalho dos outros para nos dar e em vez de o rentabilizar para o bem do povo desperdiçamo-lo desta maneira. Quero ver quando as ajudas terminarem como é que vão fazer a manutenção de todas essas estradas, pois o alcatrão não é “forever”.

  6. TANÁ

    O NENASS BO CRE FINGI QUE MA BO E DE SONCENTE MA BA DA VOLTA, TUDE GENTE SABE DONDE QUE BO É
    BO DIVIA ERA ESCREVE EM ALUPEK TA FCBOB AMEDJOR.

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