Augusto Neves: Não se trata de perder uma praia, mas sim um ecossistema

19/02/2013 23:38 - Modificado em 19/02/2013 23:38
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Discurso do acto de lançamento da primeira pedra da obra de:

“Ampliação do terrapleno e a construção do acesso norte do Porto Grande de S. Vicente”

 

S. Vicente cresceu rodeada de água por todos os lados e Mindelo essa histórica cidade esteve com o seu monte cara sempre voltado para o mar a nossa baia, essa bonita erupção hidráulica, vista em poucas partes do globo. A cidade do mar.

A nossa baia é um mundo de águas. Necessitamos cuidar esse grande lago que sempre abasteceu a ilha, pois sabemos que esta hoje muito ameaçada em termos ambientais.

Temos de investir cada vez mais nesse sentido, por meio da educação ambiental, sobretudo nas escolas, na conscientização da sociedade, bem como por meio da pesquisa e da criação de possibilidades mais racionais da sua utilização. Não temos dúvidas de que aí reside o maior desafio da ilha neste século, como em o todo pais.

A Baia tem para nós, uma importância sociológica e cultural enorme, tendo-se constituído ao longo da nossa História como um dos principais forjadores da nossa identidade.

A Câmara Municipal de S. Vicente assume o seu papel de instituição indutora do desenvolvimento da ilha, estando consciente do papel importante do governo, e, sobretudo dos empresários, por quem nutre o maior respeito e consideração, e a quem reserva um espaço fundamental no desenvolvimento da ilha.

A câmara como sempre continua a trabalhar no sentido de trazer para a ilha projectos importantes mas ao mesmo tempo estará atenta a projectos que possam perigar o desenvolvimento harmonioso da ilha.

A zona da Laginha continua a dar o seu contributo no suporte de uma zona berçário onde, simplesmente com um mergulho livre pode-se disfrutar de uma rica diversidade de peixes e invertebrados. Em tempos a baia era o único local onde se poderia encontrar a espécie endémica de Cabo Verde, o Conus matiotae, espécie esta que hoje só pode ser encontrada nos museus.

A praia da Laginha não é apenas a praia de banho da cidade. É também um importante espaço de acolhimento dos turistas e funciona como espaço de apoio aos barcos cruzeiros que demandam a ilha.

Trata-se de uma área sensível, uma vez que é a principal praia urbana da cidade do Mindelo – a Praia da Laginha – bastante procurada pelos Mindelenses, do nascer ao por do sol e por que não durante as 24 horas do dia.

Se retrocedermos no tempo, a zona da Laginha já sofreu muito devido a construções que devastaram a sua biodiversidade local: A construção da Cabnave, o alargamento do Porto Grande, a Electra, entre outras actividades.

Não se trata somente de ganhar ou perder uma praia mas sim em perder ecossistemas cruciais para a diversidade cabo-verdiana. Um exemplo claro encontra-se a vista na Avenida Marginal em que todos os anos se pode observar a proliferação de algas que torna o ambiente anóxico em causa a morte de quase tudo o que existe ali.

Onde se faz o esgotamento sanitário de todos os yates e barcos nacionais que ancoram na Baia?

E essa multiplicação de barcos velhos abandonados no Porto e na Baia?

Que futuro para a nossa Baía?

“A vida marítima acumula-se na orla costeira tal como vida terrestre se junta na margem do rio; é ali que os peixes se alimentam da flora e põe os seus ovos nos prados marítimos onde prolifera a planta aquática posidónia. Essas águas, que são apenas metade de 1% do espaço total do oceano, sustentam 90% de toda a vida marítima”.

A zona costeira é a área de abrangência dos efeitos naturais resultantes das interacções terra-mar-ar, leva em conta a paisagem físico-ambiental, em função dos acidentes topográficos situados ao longo do litoral como ilhas, estuários e baías, comporta em sua integridade os processos e interacções características das unidades ecossistêmicas.”

O turismo também se caracteriza como actividade de grande relevância na zona costeira, propiciado justamente pela existência do mar. Contudo, não podemos deixar de dizer que sua gestão deve ser realizada de maneira adequada para que se torne fonte essencial de revitalização económica.

O litoral é identificado também como espaço para o lazer, o que torna ainda mais valorizadas as regiões bem preservadas e próprias para o ecoturismo.

A qualidade visual da região costeira, devido a suas características naturais, deve ser protegida como parte do meio ambiente, pois proporciona bem-estar às pessoas que ali se encontram. Logo, devemos nos ater ao que vem acontecendo na maioria das cidades litorâneas, pois estão sendo construídos prédios enormes e obras por toda a orla, beneficiando uma minoria que pode pagar para ter da janela de seu apartamento uma bela vista para o mar.

Na nossa terra o mar é mágico e quando transpira reanima a nossa respiração, enche a fé da população e ficamos esperançados a marinar na alegria das ondas que se brotam instintivamente nas praias e encostas.

Mindelo cresceu de cara voltada para o mar com os seus ship chandlers e todo pessoal da baia. S. Vicente está ligado, desde sempre, à nossa maritimidade e Mindelo sempre foi uma cidade protuberante na nossa relação com o Mar. Hoje em dia, mantendo-se uma forte tradição piscatória, é sobretudo o turismo marítimo ou balnear, ou seja todo aquele que procura a costa e a proximidade do mar, que prevalece e constitui actividade prioritária em toda a região.

O Porto de Cruzeiros, estrategicamente localizado junto à confluência do Oceano Atlântico com a nossa linda baia, terá um papel fulcral na dinamização do turismo marítimo regional.

Cabo Verde por ser arquipélago possui uma orla costeira de uma riqueza paisagística e ecológica particulares. O turismo e as actividades marítimas têm entre nós uma relevância histórica e nalguns sectores, apresentam um elevado potencial de desenvolvimento, devido a características naturais das ilhas, propiciadores de eventos náuticos internacionais de grande prestígio. Cabo verde esteve sempre empenhado na promoção de formas inovadoras de aproveitamento sustentável dos recursos dos mares e oceanos, contribuindo para o desenvolvimento da economia do mar e das indústrias marítimas, apostando nas ciências e tecnologias do mar, criando emprego, fomentando o ensino, a educação e o desporto associado ao mar, resolvendo conflitos de uso e potenciando sinergias através de implementação de um planeamento e ordenamento espacial das actividades.

Sendo necessário assim, garantir que o nosso valioso património natural e cultural subaquático do mar seja devidamente salvaguardado e protegido.

Dos principais objectivos do país deve ser a aplicação de políticas ambientais, fortalecimento da infra-estrutura ambiental, melhor integração de delicadeza ambiental com as decisões económicas e realização dos acordos respeito a este assunto, compatibilizando a conservação da natureza com o uso sustentável dos seus recursos naturais. Num território de importância regional, promover o seu planeamento e gestão ambiental por meio de processos participativos, é premente.

O ordenamento territorial é o meio pelo qual se busca construir uma convivência entre a conservação da natureza, recuperação ambiental e as actividades humanas, resultando numa melhoria da qualidade de vida das comunidades locais e da população.

Obrigado

 

 

 

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