AS BANDEIRAS DO ONÉSIMO SILVEIRA

6/05/2012 22:00 - Modificado em 6/05/2012 22:25

Ao olhar para a fotografia do palanque do comício eleitoral do PTS, a imagem transmitiu-me a sensação daqueles dias em que o vento agreste fustiga o corpo e endromina o prazer das noites olorosas de Mindelo. Pode ser uma simples impressão minha, só porque corria o mês de Fevereiro, propício a vento e “bruma seca”.

Onésimo Silveira falava para os adeptos da sua causa, tentando explicar-lhes, com a sua natural veia discursiva, que S. Vicente se perdera na curva assimétrica do destino das ilhas. Postergado pelas políticas dos homens, desviado das rotas antigas, macerado na sua identidade cultural. O extracto sucinto da reportagem jornalística, que me era presente, referia as linhas de força do seu verbo, mas ao jornalista talvez tenha escapado algo de simultaneamente romântico e espectral naquela imagem fotográfica captada na poalha da noite. Provinha talvez das longas barbas brancas do veterano da política, que, só por si, infundiam a magia hipnótica do seu instinto. Convenci-me de que, como sempre, ele estaria ali a jogar com a letra perfeita do léxico de uma arte refinada por muitos anos de caminhada pelos trilhos da política.

O público ali presente encontraria, ou não, motivos de encantamento nas palavras do político-poeta, ou do poeta-político. Porque a política só ganha se na poesia colher o aroma balsâmico para a aspereza, a agressividade e a incontinência verbal. Mas Silveira deve ter feito a mediação certa entre o lirismo e a retórica política para afinar o tom e o modo na sua crítica a quem achava responsável pelo estado actual da sua ilha. Fiel ao seu passado, e fiando no seu faro político, arvorava a bandeira do inconformismo que o caracteriza, espetando-a no chão das suas sínteses estratégicas. O tempo viria a dizer se ele foi ou não convincente, do alto do púlpito em que fez uso da palavra.

Mas quem é este veterano da política cabo-verdiana, este homem de barba mefistofélica, que nos faz olhar para a política não apenas como um imperativo cívico mas também como uma romântica aventura humana? Não tenho nem nunca tive qualquer relação pessoal com o Onésimo Silveira, mas, como ele pertence àquela estirpe de seres que saltam facilmente para a luz, conheço-o como todo o cabo-verdiano que se preze, tendo acompanhado os passos mais marcantes do seu percurso. Contudo, a memória pessoal mais impressiva que dele guardo recua a tempos muito antigos, naquela idade em que as meninges infantis recortam e guardam para sempre o que mais impressiona. Era eu ainda menino de escola primária e ele estaria nos últimos anos do liceu. Passava diariamente na minha rua, no trajecto entre a casa e o liceu Gil Eanes, e recordo perfeitamente que o Onésimo despertava nos rapazes mais novos uma curiosidade reverencial, pelo seu ar resoluto e desafiador. Aliás, a personalidade forte e o espírito determinado viriam a determinar o rumo que cedo deu à vida. É assim que, decididamente, deixa Cabo Verde e acaba por rumar à Suécia, onde se licencia, não tardando a ganhar notoriedade como poeta, intelectual e opositor à política colonial, com ligação ao PAIGC. Cerca de 10 títulos literários, entre poesia, conto e prosa do género ensaístico, atestam o vigor da sua cultura. O exercício de um alto cargo na ONU e, posteriormente, como embaixador de Cabo Verde em Portugal, provaram a sua capacidade diplomática e política. Nestas últimas funções, encontraria terreno de eleição para arvorar uma importante bandeira, talvez das que lhe são mais queridas – a da solidariedade humana.

Como quase toda a figura pública, Onésimo tem um lado complexo e controverso da sua personalidade, e não faltará quem lhe aponte defeitos, em meio aos atributos que o exornam como ser humano e como político. Mas o amor à terra natal é seguramente um profundo estado de alma que se lhe tem de reconhecer e enaltecer. Outro teria feito render o mais possível o prestigiante e dourado cargo na ONU. Ele preferiu regressar para participar activamente na política do seu país, e se bem o pensou melhor o fez, criando um movimento político com o qual ganha as eleições autárquicas, passando a ser Presidente da Câmara Municipal de S. Vicente, em dois mandatos consecutivos.

Pela sua acção como edil, é unanimemente reconhecido como o obreiro da transformação de Mindelo no pós-independência. Realce-se, com efeito, a coragem com que quebrou rotinas pastosas na acção administrativa e fez avançar o progresso urbano da cidade, derrubando, ao mesmo tempo, tabus e preconceitos introduzidos pela sanha revolucionária que ameaçava adulterar e desfeitear a história da cidade. Estátuas de tempos idos que haviam sido desmontadas foram recolocadas nos seus pedestais. Impediu-se assim o sacrilégio de atentar contra o imortal Camões ou figuras como o ilustre estadista e humanista Sá da Bandeira, amigo de Cabo Verde. Ruas que haviam sido violentadas na sua identidade toponímica foram recuperadas para a veracidade histórica, e outras passaram a consagrar nomes de figuras da terra. Esta reposição de valores e princípios que preservam a identidade, só está ao alcance de quem ousa influenciar os acontecimentos, mesmo arrostando o desconforto de reacções adversas. Não fosse a sua acção determinada, a memória da cidade não se teria ressarcido dos excessos de alguns pseudo-revolucionários na sua ânsia de acerto de contas com o passado. A urbe fica a dever-lhe esta grandiosa bandeira, a da sua identidade resgatada, que deve permanecer hasteada no seu mais alto torreão.

Mais recentemente, Onésimo reapareceu em cena para defender o património histórico-cultural da sua cidade natal, ameaçado pela inoperância da actual Autarquia e pelo desamparo do Governo central. Os resultados ficaram, infelizmente, muito aquém da militância cívica que ele e outros cidadãos de vários quadrantes sociais entenderam protagonizar, mas nessa mesma forja fundiu o aço para a batalha seguinte, a do pleito legislativo, que é onde o surpreendo no cimo do palanque.

Naquela noite eleitoral de Fevereiro, o veterano e incansável Onésimo Silveira “subiu à cruz à frente do seu partido” (1), exangue e de mãos vazias, mas certamente temerário e confiante como sempre, e “o povo acabou por crucificá-lo”(1). Porém, para o alto da cruz levou consigo a bandeira da regionalização, e ali a deixou hasteada. Tremulando no próprio assombro.

As expectativas estão abertas, enquanto ele acumula cicatrizes dos recontros a que não se furta. Porque Onésimo nunca desiste de se bater pela perpetuação do possível, mesmo que a relação ambígua entre a efemeridade humana e a perenidade dos sonhos seja por vezes perniciosa para os cálculos mais ousados. Uma coisa que o deve, no entanto, entristecer é o silêncio de pedra que parece actualmente nimbar a sociedade civil da sua ilha, cristalizando um vidro espesso e opaco que não facilita a auscultação das vontades nem reflecte as antigas reminiscências. Tão intrigante é esta realidade como tão evidente é estarmos a pisar um terreno que reclama a charrua cívica deste intelectual talhado para brandir a palavra e encorajar ao arrebatamento de ânimo.

Seja o que o futuro próximo nos reserva, Onésimo Silveira, com o seu instinto e a sua resiliência, sabe que a fiança tutelar da sua ilha natal nunca lhe será revogada, inclinem-se por onde se inclinarem os ponteiros dos barómetros, sempre sensíveis a ventos e marés.

Inúmeras são as bandeiras das suas pelejas, umas esfarrapadas e postadas em peanhas alinhadas na sua memória, outras incólumes ainda no tecido da sua heráldica, prontas para novas batalhas. Este cidadão não arruma as armas, e nenhum povo, nenhuma pátria, pode licenciar um guerreiro deste calibre. Sobretudo, a ilha de S. Vicente.

 

(1)   Depoimento de Onésimo Silveira em entrevista ao jornal “A Semana”, publicada em 20/02/11, com o título “Só me retirarei da política com a minha morte biológica”.

 

 

Tomar, 16 de Março de 2011

 

 

Adriano Miranda Lima

 (Sou Um cabo-verdiano reformado, residente em Portugal. Nada, mas absolutamente nada, me liga à pessoa de Onésimo Silveira ou ao seu partido político, nem a nenhum dos partidos do expectro político cabo-verdiano. Apenas aqui expresso o meu respeito e o meu apreço pelo intelectual e pelo político, um homem que não desiste de pugnar pelas causas justas da ilha em que ambos nascemos)

  1. O seu artigo está excelente Sr Miranda Lima, mas quem trai uma vez trairá sempre.Não se esqueça para que depois não diga que eu não o avisei.

  2. José F Lopes

    Este é um autêntico ‘portrait’ político de um personagem central de S. Vicente do Século XX. Quase um ano passado da sua publicação este teu artigo é de uma actualidade espantosas. OS é uma personalidade multifacetada e de uma cultura que a muitos faz inveja, é também controverso na sua cidade mercê das disputas politico-partidárias e do ambiente sulfuroso que se vive e cabo Verde. Como bem afirmaste OS não arruma as armas, e nenhum povo, nenhuma pátria, pode licenciar um guerreiro deste calibre. Sobretudo, a ilha de S. Vicente. Precisamos dele e de muitos outros mindelenses e cabo-verdianos de boa vontade para esta transição do centralismo autoritário para a Regionalização democrática.

  3. eduardo monteiro

    Na próxima quinta-feira comenora-se o dia Mundial da Imprensa, para não falar das comemrações do dia da liberdade da Imprensa que foi comemorado no país, na semana passada.
    O Eduíno e seus sequazes não deixam exprimir a minha opinião. Costuma-se dizer quem não conheceu a liberdade, não sabe o que significa, por mim estão perdoados na vossa santa ignoraância.

  4. caro Eduardo Monteiro

    O senhor está sendo injusto comigo . Não sei o que acontece com o email que utiliza para enviar os comentários o certo é que vão parar no spam.no outro site não tinha acesso aos spam , mas neste tenho acesso e encontrei o seu comentário no spam e marquei como válido tanto que este não foi parar ao spam. Eu tb lhe perdoou pela ignorância .Amigos em nome da liberdade de expressão ?

  5. eduardo monteiro

    Caro Eduíno Santos:
    Começo por apresentar as minhas desculpas se foi injusto consigo. Nesta página os meus comentários, são ” censuarados” ou sou impedido de escrever, como aconteceu há dias que deixei um comentário por terminar , ficando a meio do texto, depois de escrever algumas palavras alguém nos bastidores, não me deixa escrever , se vou meter um letra ele corre o rato estorvando que insira a letra ou o carácter que pretendo inserir.Ontem abusivamente, deslocou a página inteira com a roa

  6. TONY SILVA

    PARA MIM,ONESIO SILVEIRA
    e um politico racista intelectual cujo o desejo dele e separar sao vicente ou ter um
    sao vicente independente de cabo verde que isto nunca vai acontecer as ilhas tem que continuar sempre unidas caros irmoes.

  7. djon de daluz

    Fica assim claro que o Norte de Cabo Verde tem muitas potencialidade e recursos humanos subaproveitados. Basta libertar as energias contidas e verão como cabo verde avançará.

  8. eduardo monteiro

    Falo pessoalmento com O Eduíno para tirar esses abusos a limpo

  9. eduino santos

    caro Eduardo Monteiro

    pela sua explicação , agora entendo tudo . Tem , de certeza , um vírus no seu computador que interfere e por isso o nosso sistema anti. vírus bloqueia os seus comentários

  10. Candido salomao

    adriano bo ca tem qualqer credibilidade. Fcà qess crise là na Portugal e tchà Soncent em paz por favor!

  11. Bia de Jesus

    Adorei este texto redigido com verdadeira arte literária e com verdade. O senhor Adriano Lima está de parabéns ao relembrar ao povo da minha terra que o Onésimo é valor que não se pode perder. Para bem dele próprio e para bem de SVicente vamos esperar que ele enterre algum passado mais confuso na sua vida pessoal e política e seja a voz vibrante para acordar os cidadãos adormecidos ou temerosos

  12. Djosa Boca de Lume

    Racista é ese Tony Silva que não dá direito de outros dizerem sua opinião e defender os interreses de sua ilha. Onésimo mete num chinelo todos vocês da Praia. Povo de Soncente tem de levantar ànimo e ir pra frente da defesa da sua ilha cada vez mais abandonada e com séries problema de emprego.

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