Entre o alcatrão e o basalto 2ª Parte

4/05/2012 07:26 - Modificado em 4/05/2012 07:26

2. Contra-indicações ambientais do ‘Todo Betão e Alcatrão’

Na 1ª Parte do meu artigo concluí da seguinte maneira’ Todavia muitos que idealizam um Cabo Verde em que se dê mais espaço ao verde, esta cor ecológica que representa a eterna esperança de pintar as nossas ilhas de verde, ficarão decepcionados com a ideologia desenvolvimentista que consagra ‘o todo alcatrão’ como o paradigma do progresso e o fim em si. Mas um aviso aos eufóricos do desenvolvimento, o uso generalizado e desenfreado do betão e do alcatrão não é, ‘hélas’, de todo pacífico, tem contra-indicações ambientais. Para que se desfaçam as dúvidas vejamos o que diz a Ciência.’

A questão da banalização do alcatrão em Cabo Verde é pois um assunto que merece reflexão, pois exemplo de regiões virgens transformadas em infernos de betão e alcatrão estão muito próximo de nós, para não cairmos em tais esparrelas. O turismo mal concebido poderá transformar Cabo Verde num inferno desumanizado de praias, sol betão e alcatrão com muito pouco progresso social e humano.

Na Workshop Internacional na área do ambiente e clima intitulada Reflectindo sobre as Soluções Face às Alterações Climáticas em Meios Urbanos Insulares organizado em 2011 pelo projecto KSIDS (Capacity Building and Knowledge on Sustainable Responses to Climate Change in Islands) no Mindelo, mostrou o caso paradigmático da Madeira onde a ocorrência de um evento climático extremo (tempestade e chuvas intensas) no Inverno de 2010, este fenómeno natural que foi ampliado por factores de origem antropogénica (humanos), destacando dois aspectos essenciais: a má utilização do solo, nomeadamente a sua impermeabilização, e a generalização do betão e do alcatrão. Este desastre teve pois a colaboração activa do homem.

Muitos leitores que visitaram grandes cidades como Lisboa, Paris, etc, já constataram que quando faz calor no Verão, 36ºC por exemplo, a sensação de calor é maior, pois o meio urbano tem tendência a empolar a temperatura, podendo esta disparar para os 40ºC. Este é um efeito conhecido por ‘Ilha de Calor’, termo utilizado em Meteorologia, induzido pelas aglomerações urbanas, no qual contribuem, entre outros, uma forte concentração de betão e do alcatrão em áreas reduzidas. Este efeito é muito frequente nas grandes cidades e a sua ‘assinatura’ são as isotermas (curvas de linha no espaço com a mesma temperatura) que faz lembrar as curvas de nível da topografia de uma ilha, daí a origem do nome ilha de calor urbana. As ilhas de calor agravam as ondas de calor (canículas) com consequências sobre o aumento da mortalidade de idosos e doentes que apresentem redução em sua capacidade de termorregulação corpórea e de percepção da necessidade corpórea de hidratação (idosos e pacientes com doenças mentais ou de mobilidade). As ilhas de calor urbanas são fenómenos microclimáticos favoráveis ao aumento da temperatura nas cidades nas latitudes médias, mas provocam muito desconforto nas cidades de clima tropical e quente. A origem da ilha de calor decorre da simples presença de edificações e das alterações da paisagem feitas pelo homem nas cidades. A ilha de calor manifesta-se como um contraste térmico entre uma área mais urbanizada e menos urbanizada ou periférica envolvente, que inclusive pode ser uma área agrícola. As áreas urbanas apresentam características particulares devido à especificidade materiais utilizados nas construções urbanas que alteram do albedo solar (reflexão da radiação solar pelo solo) absorvem e emitem para o espaço muito mais radiação solar que o ambiente: asfalto, ruas alcatroadas, concreto, solo desprovidos de vegetação impermeabilização da superfície do solo. Para além disso estes materiais têm propriedades térmicas (absorção de calor, sua condução, sua emissão) diferentes dos materiais naturais, tais como a pedra, de tal modo que, em geral, incrementam a temperatura do solo de vários graus em climas quentes e no Verão. A este efeito acresce outro colateral que é o aumento da velocidade do escoamento superficial da água de chuva. A ilha de calor pode ser explicada pelo conceito físico do ’corpo negro ou cinzento’, um corpo que absorve radiação e contribui para a acumulação energética até se atingir a temperatura de equilíbrio, que em geral é muito mais elevada que a do ambiente. Como todos podem perceber o alcatrão não tratado entra nesta categoria de materiais. Convém referir aqui que nos países desenvolvidos, o asfalto tem uma composição ‘compósita’, ou seja agrega outros materiais, com o objectivo de melhorar as suas propriedades físicas e de conforto ambiental. Existem várias causas que explicam a formação da ilha de calor nas cidades:

efeitos da poluição do ar: o efeito de interação entre a radiação e a poluição atmosférica constituída de partículas e de diferentes gases, como os gases do efeito estufa.

fontes de calor de origem antropogénica: Emissões antrópicas de calor e humidade associadas à queima de combustíveis fósseis, ar condicionado.

mudanças no balanço de radiação: O aprisionamento da radiação solar e infravermelha associada ao balanço local do fluxo radiativo sobre as superfícies, ruas, ‘canyons’ urbanos (denominação dos ‘corredores’ urbanos (ou cavidades) associados à altura dos prédios e à redução da largura das vias e ruas). O efeito da geometria do ‘canyon’ urbano provoca alterações no albedo urbano (reflexão da radiação solar pela superfície do solo) como um todo, de forma a aumentar a absorção de radiação solar visível. Como consequência tem-se um decréscimo da perda de radiação infravermelha para a atmosfera pelos ‘canions’ urbanos, com consequente aumento da temperatura.

uso de materiais muito absorventes da radiação solar (de baixa refletividade) tais como o betão e o alcatrão: Maior acumulação de calor durante o dia devido às propriedades de absorção pelos materiais utilizados na construção da cidade (ou urbanização) e sua emissão durante o período noturno. Há balanços de energia e de água particulares sobre as áreas urbanizadas, que diferem dos respectivos balanços sobre paisagens naturais ou pouco modificadas. Redução da reflexão da radiação solar pelo solo.

efeito da redução das áreas verdes: Decréscimo da evapotranspiração pela impermeabilização das superfícies urbanas e redução de áreas verdes nas cidades. A reduzida fração de área vegetada em áreas fortemente urbanizadas diminui a extensão.

a impermeabilização dos solos devido à pavimentação e desvio da água por bueiro e galerias, o que reduz o processo de evaporação e evapotranspiração urbana, modificando o balanço hídrico da superfície urbana, podendo aumentar a vulnerabilidade da população a enchentes e deslizamentos de terra.

Resumindo: o uso generalizado do alcatrão e do betão afecta o balanço radiativo e térmico entre o solo e a atmosfera. Estes dois materiais constituem, pois, factores importantes na formação do desconforto ambiental em zonas densamente urbanas. Por outro lado é fácil provar cientificamente (quem estiver interessado poderei facultar outros dados, para além da bibliografia) que a pedra para além de ser um material natural tem características térmicas e radiativas que suplantam de longe o alcatrão. Para além disso existe um outro efeito colateral do alcatrão, que é o de acelerar o escoamento das águas torrenciais. Estas duas contraindicações devem ser tomadas com muita seriedade quando se pretende o desenvolvimento de zonas áridas com forte potencial de erosão tal como é o caso de Cabo Verde. Tirando esses aspectos climatológicos, a calçada é de longe a melhor solução no que concerne o conforto humano e ecológico. Obviamente que, o que aqui foi dito são conceitos genéricos, pelo que os estudiosos poderão recorrer aos resultados investigação em gabinetes de engenharia e geofísica especializados. Apresento alguma bibliografia para quem quiser consultar alguma das informações que avanço (Continuação e Fim: Por um novo conceito de cidade e pela revalorização da Pedra).

José Fortes Lopes

 

Bibliografia e leituras úteis:

http://espere.mpch-mainz.mpg.de/documents/pdf/05ClimateinCities/ClimateInCitiesBasicsUnit2.pdf

-Ilha De Calor http://pt.wikipedia.org/wiki/Ilha_de_calor

-http://www.differencebetween.net/object/difference-between-concrete-and-asphalt-roads/

http://www.nyc.gov/html/dot/downloads/pdf/nycdot_streetdesignmanual_ch3.pdf

-http://en.wikipedia.org/wiki/Permeable_paving

http://www.gilbertaz.gov/planning/urbanheatisland.cfm

http://www.epa.gov/heatisland/

http://www.epa.gov/heatisland/mitigation/index.htm

-http://www.epa.gov/hiri/resources/pdf/CoolPavesCompendium.pdf

-http://www.garden.org/urbangardening/index.php?page=heat-island

-http://environment.about.com/od/globalwarmingandweather/a/heat_islands.htm

http://strawberrycreek.berkeley.edu/pdfs/Start@Source/sats8technicalsection.pdf

http://www.drainscape.com/custdocs/GlendalePerviousConcreteQA_ASU.pdf

http://www.eurojournals.com/ejsr_35_2_06.pdf

-José Lopes e Anildo Costa, Debatendo mudanças climáticas em Cabo Verde e S. Tomè ; http://www.forcv.com/opinions/3718-debatendo-mudancas-climaticas-em-cabo-verde-e-s-tome. Foi também publicado no Notícias do Norte

  1. Pulù - Sancent

    Bo tem razon Mario Fernand. Dos discursos palhassos dest ze lopes, ninguem ta intendè nada. ze lopes pàra de oià novela!!!… Bo è um cansode qe tem sò teoria ma ca ta sabè o qe è a REALIDADE EM CABO VERDE!!! ESPERTÀ PÀ!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  2. José Manuel de Jesus

    O dr. José Fortes Lopes é um reconhecido técnico na sua àrea e é respeitado por todos, mesmo alguns detractores. Quando nada se sabe, deve-se calar e ficar quitim sem dar show de prvoice. Aparecem aqui dois analfabetos, que escrever sabem, catalogando-o na categoria deles. Francamente, hà gente que para burro so lhes faltas penas

  3. Nita Fortes

    Avaliem. Uma pessoa que é professor universitàrio no estrangeiro a ser julgado por duas pessoas que nem sabem escrever quanto mais agora conhecer a fisica ou a metereologia. Ao que fazem digo que é mà criação, falta de respeito e abuso de liberdade num espaço que lhes é dado para opinar. Antes era ouvir e calar e agora é zurrar para toos ouvir. Hà gente que não pode viver senão amordaçada porque livre são perigo para os seus compatriotas.
    Até quando vão ter esta oportunidade?

  4. Adrino Miranda Lima

    Só não entende o que é vertido neste texto do Dr. José Lopes quem não quer ou recusa ver a evidência. Sobre o assunto quem escreve não é um amador ou simples curioso. É, com efeito, um professor universitário e a matéria vertida pertence à sua área de investigação e docência. Agradeçamos-lhe pela disponibilidade que encontrou para nos elucidar sobre uma importante questão.
    E haja ao menos respeito por quem nos ensina, se, por qualque razão obscura, não queremos aprender.

  5. Luís Fonseca

    Na Europa, vias, pontes, aquedutos romanas são objetos de obra de conservação e manutenção, NUNCA objetos de destruíção. Em CV, devia-se ter sensibilidade ambiental. Já que não existe perguntem a quem saiba. Em tempos um presidente da Câmara municipal, autorizou a uma empresa que desbravasse perfil de uma colina que dá acesso à Jom d’Évora, a fim de extraírem inertes, resultado, amputarm parte considerável dessa colina expondo assim populações a mais contantes ataques de rajadas de vento e poeira

Os comentários estão fechados.

Publicidades
© 2012 - 2017: Notícias do Norte | Todos os direitos reservados.