Acesso norte do Porto Grande: O acesso da Polémica ou o olhar para o abismo

29/01/2013 00:12 - Modificado em 29/01/2013 00:12

O certo é que a obra vai avançar e os cidadãos, mais uma vez, ficam com a sensação que são chamados a dar a própria opinião quando as decisões já estão tomadas. É assim. Nas grandes questões que afectam a vida de todos, continuamos a ignorar que o problema de olhar para o abismo é que ele também olha para nós com todas as consequências: vale a pena recordar os crimes ambientais e urbanísticos cometidos na cidade do Mindelo?

 

 

As obras do chamado acesso norte do Porto Grande estão prestes a iniciar. O projecto nasceu com a contestação daqueles que acham que a praia da Laginha vai ser afectada e que se poderia ter encontrado outro local para fazer o acesso. Mas o certo é que mesmo com vozes contrárias o projecto avançou.

O Governo define da seguinte maneira o acesso: “O ante-projecto do Acesso Norte do Porto Grande de São Vicente, insere-se no âmbito do “Estudo de reordenamento das áreas terrestres do Porto Grande”, integrado ainda na reestruturação viária da Avenida Marginal afecta ao Porto”. Refere que o troço em estudo liga a parte norte do Porto Grande com a Avenida Marginal e a jusante da Av. Alberto Leite, rua da escola técnica, aliviando o único acesso estreito a esta área da cidade que possui unidades industriais, os silos da MOAVE e grandes áreas de armazenagem. Vai permitir a libertação do espaço limitado do parque de contentores, proporcionando o correcto enquadramento do sistema viário portuário e urbano”.

 

Pomo da discórdia

 

Mas o pomo da discórdia está na conclusão seguinte: O seu trabalho implica a conquista de território marítimo, através de terrapleno e ampliação do nó rodoviário da Av. Marginal com a Av. Alberto Leite. Para muitos, isso significa “invadir a Laginha” e, na pior das hipóteses, “acabar com a Laginha”. O biólogo Evandro Lopes defende que essa obra não vai trazer nenhum benefício à cidade. “Não se trata de ganhar ou de perder praia mas sim de perder ecossistemas cruciais para a biodiversidade Cabo-verdiana. Um exemplo claro encontra-se à vista na avenida marginal onde todos os anos pode-se observar a proliferação massiva de algas que tornam o ambiente anóxico e causa a morte de quase tudo o que existe ali. Esse efeito é causado pela pouca renovação da água que existe no local. Só não vê quem não quer ver. “Evandro conclui dizendo que para além dos efeitos ecológico devastadores” não se pode esquecer do efeito que a obra terá nas actividades turísticas da zona como também da saúde dos utilizadores da praia. A praia é uma das mais frequentadas de São Vicente e a pouca renovação da água acarretará aumento da incidência de doenças na população. Sendo a única praia balnear da cidade, os prejuízos turísticos serão grandes visto que é muito frequentada durante todas as épocas do ano. O desenvolvimento de algumas actividades náuticas que dependem da ondulação poderá ficar comprometido nessa zona.

 

 

Estudo da ENAPOR

 

O NN teve acesso ao parecer da bióloga marinha Mara Abu-Raya sobre um estudo encomendado pela ENAPOR intitulado “Alargamento do terrapleno e construção de uma nova via de acesso na zona nordeste do Porto Grande, S. Vicente – análise dos efeitos sobre a praia da Laginha -. “E concluiu:

O estudo está bastante claro, sucinto e conclusivo: Não se detectaram alterações sensíveis dos rumos e das alturas das ondas que atingem a praia. Os efeitos da obra são locais e muito limitados e não se alastram à orla arenosa”. Mas considera que há elementos que não constam do estudo como “a caracterização ambiental (no estudo apresentado fizeram apenas uma análise da agitação marítima) da zona. Os efeitos durante e após a construção e, também, durante as actividades diárias que irão ser desenvolvidas na área a construir.

– Toda a construção produz resíduos (sólidos e líquidos). Quais serão as medidas que irão ser tomadas? Acho que esse item é muito importante visto que temos (em Cabo Verde) um grande défice na área de tratamento dos resíduos.

– O efeito da construção na vida social (poluição sonora). Quais serão as medidas mitigadoras?

– Existem efeitos na fase de operação ou funcionamento? Quais serão as medidas mitigadoras?

 

Orla Marítima comprometida

 

Guilherme Mascarenhas , engenheiro, comentando o estudo considera que só se deve mexer nas orlas marítimas em casos extremos e quando não existem mais alternativas, pois elas sustentam 90% de toda a vida marítima. Por isso, defende que se deveriam ter procurado outros acessos e sugere “Se o autor da memória descritiva tivesse essa consciência, teria evitado as três vias de acesso extra e teria feito o acesso encostado à Moave no terrapleno já existente, evitando ao máximo qualquer necessidade de conquistar mais terrenos ao mar. Não creio que o tráfego vá ser de tal ordem que justifique vias de acesso novas, que na prática não iriam resolver os congestionamentos, já que o congestionamento continuaria a se verificar na Av. Dr. Alberto Leite (Rua da Escola Técnica).

 

O certo é que obra vai avançar e os cidadãos, mais uma vez, ficam com a sensação que são chamados a dar a própria opinião quando as decisões já estão tomadas. E assim, nas grandes questões que afectam a vida de todos continuamos a ignorar que o problema de olhar para o abismo é que ele também olha para nós. Com todas as consequências: vale a pena recordar os crimes ambientais e urbanísticos cometidos na cidade do Mindelo?

 

Eduíno Santos

  1. MP

    Ate agora não entendi uma coisa, que de leva, é o motivo do projecto. Como é que esse projecto vai melhorar o fluxo de acesso ao Porto, via Av. Alberto Leite? Se os caminhões carregados de contentores entrarem nessa Avenida, vão sair como? Subindo a subida de Cruz? Indo a partir do Fonte Meio para o Centro da cidade? Descendo a Av. 5 de Julho e passando pela praça? Isso obriga o caminhão a passar pela Centro, ou pela periferia, quando se sabe que a Zona industrial fica no Sul.

  2. monte cara

    Pergunto porque só agora a reclamação. pq nao reclamaram no momento proprio quando o estudo estava aberto a consulta pública? durante 30 dias havia 2 RNT em consulta pública na Camara Municipal e na Delegação do MDR em Mindelo. ninguem opinou, quem cala esta de acordo.

  3. Tubarao

    Tambem nao entendi. Fiquei com a impressao que o projecto nao foi aceite pela camara de S.vicente por isso nao foi a frente. Isso quer dizer que ja houve aceitacao da camara????

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