Entre o alcatrão e o basalto

2/05/2012 00:05 - Modificado em 1/05/2012 23:50

Este artigo está dividido em três partes. Numa primeira parte, partindo de reflexões do Dr. Arsénio de Pina sobre o valor da pedra cabo-verdiana, publicadas na serie de artigos FALEMOS DA AGRICULTURA E DO DESENVOLVIMENTO RURAL, mostro como uma desenfreada corrida para a modernidade, induz um olhar distraído sobre o património global, quer seja material quer seja imaterial. Na segunda parte apresento argumentos científicos que apontam no sentido de uma solução equilibrada entre o modernismo todo alcatrão/betão e a pedra, e da necessidade da valorização da calçada crioula, este autêntico património nacional, que apresenta de longe melhores índices de conforto humano e ecológico, quando comparados com os do alcatrão. Na terceira parte defendo a necessidade da valorização da única matéria-prima que Cabo Verde possui, a rocha basáltica, e apresento pistas no sentido da sua valorização e transformação num produto nacional. Defendo também a necessidade da Requalificação Urbana das nossas cidades, através de uma numa solução equilibrada entre a pedra e o alcatrão.

1ª Parte. Divagando pelos caminhos e estradas do desenvolvimento

Este artigo foi inspirado dos artigos: FALEMOS DA AGRICULTURA E DO DESENVOLVIMENTO RURAL da autoria do Dr. Arsénio de Pina recém-publicados no Liberal Online. Vem no seguimento desta série de reflexões sobre as políticas de desenvolvimento implementadas em Cabo Verde. É uma reação em forma de ensaio à problemática do alcatrão levantada pelo articulista.

A um dado passo escreve ‘’A cidade ficou mais limpa e agradável com o alcatroamento de algumas ruas; todavia preferia que fosse com calçada, chamada portuguesa, que os nossos calceteiros sabem fazer à perfeição, que daria trabalho a mais gente e facilmente reparável porque pedras temos para dar e vender, o que não acontece com o alcatrão que é importado. Outrossim, a espessura do alcatrão é tão pequena que uma chuvada mais desaforada a reduzirá a fanicos, aliás, a buracos. A grandiosa obra Ponte d´Água à beira da marina, da iniciativa de patrícia emigrante casada com estrangeiro, beneficiou imenso a zona ribeirinha, possuindo requintes de bom gosto e utilidade. Mais um exemplo de iniciativas de patrícios da diáspora, tão mal valorizados! Razão tem o amigo Luiz Silva nas suas críticas!’’

Nestes últimos anos, nos habituamos com alguma regularidade a ouvir da parte do Governo e das autarquias notícias em tom eufórico sobre inaugurações de várias obras públicas, nomeadamente troços de estrada asfaltados, factos que indiciam sem dúvida um certo crescimento económico e material de Cabo Verde. A generalização do alcatrão acompanha, em geral, o crescimento económico dos países, e não é por acaso que o General De Gaule afirmava: ‘Quand le batiment va, tout va’ (traduzindo mais ou menos: com a construção a economia embala-se). Embora não se possa medir o desenvolvimento de um país pelos quilómetros de estrada que constrói, é certo que um país que os realiza está menos subdesenvolvido em infraestruturas. Como bem imortalizou a linda canção, já longínqua no tempo, ‘Se Tchom D’Holanda Tem Sponja, Tchom de Son Cente tem Espin’, as nossas calçadas, comparadas com as do mundo desenvolvido, onde vive grande parte dos nossos emigrantes, eram e ainda são caracterizadas por um mau pavimento, muitas vezes irregularmente calcetadas, cheias de buracos. A substituição da calçada (pedra) por piso em alcatrão, no chão das nossas tradicionais ruas, por onde andámos, pisámos e jogámos (com os pés descalços), inaugura assim novos tempos e marca psicologicamente o início de um inexorável progresso material, acabando de vez com as topadas e os dedos estortegados causados por este ‘maldito chão de pedra’. Não duvido que esta iniciativa poderá até coincidir com alguma necessidade de um certo saneamento público das nossas cidades.

No mundo moderno em que vivemos, queremos atingir o progresso depressa, descartamos, atirando para o caixote do lixo, os velhos utensílios, coisas que parecem antiquadas, pouco modernas (mas que nos foram úteis no passado), substituindo-as pelo novo e moderno. Neste contexto de confronto entre o novo e o velho, a velha calçada cabo-verdiana, produto da única matéria-prima disponível, a rocha, está pois condenada a desaparecer. A pedra é portanto um património, de entre os poucos que o país possui, em perda de valor. No livro sobre Cabo Verde do francês Jean Yves Loude este exprime a sua pena em ver que o desenvolvimento em curso em Cabo Verde quase nunca se cruza com a permanência de salvaguarda do património quando o visitante faz careta à vista da modernidade obsoleta e deslocada e o desaparecimento de um património histórico. São os estrangeiros que visitam o nosso país e alguns caboverdianos ‘estrangeirados’, iniciados ao ‘vício’ de apreciar o que é universalmente bom e ‘bien de chez nous’ (traduzindo cabo-verdiano), que mais valorizam o património e se indignam com alguns estranhos e ligeiros sinais de desenvolvimento. São poucos os que se indignam com o avassalador apetite dos poderes da Praia em construir o novo e o moderno, sem hesitar em destruir o património material e imaterial mindelense. Mas quantas vezes, na nossa luta cívica para a preservação dos inúmeros patrimónios ameaçados, ouvimos o refrão dos zeladores do progresso: ‘Oh gente, vocês estão contra a modernização na nossa terra….!?’. É pois dos defensores desta modernidade ‘kitsch’ que roça o mau gosto, fruto de uma cultura rasca criada por uma nova elite novo-riquista, que vive dos favores do Estado, entre a incultura e a ignorância, a balbúrdia política, que provêm estes ataques muitas vezes virulentos. Duvido que algum Claridoso, conseguisse viver neste clima actual em que se vive em Cabo Verde.

Como pode Cabo Verde atrair visitantes, se não oferece nada de genuíno, nem típico? O que é que se pode mostrar aos outros quando não se valoriza adequadamente o património? O turismo exigente e de qualidade, visto como intercâmbio cultural, descoberta do outro e de outros lugares, e não como uma mera fonte de receitas, é o melhor investimento que um país desprovido de recursos pode fazer. Mas este turismo exige ‘helas’ reflexão, definição de prioridades e a valorização do típico e do património. Isto é pedir demais aos actuais projectistas do desenvolvimento desenfreado.

Todavia muitos que idealizam um Cabo Verde em que se dê mais espaço ao verde, esta cor ecológica que representa a eterna esperança de pintar as nossas ilhas de verde, ficarão decepcionados com a ideologia desenvolvimentista que consagra ‘o todo alcatrão’ como o paradigma do progresso e o fim em si. Mas um aviso aos eufóricos do desenvolvimento, o uso generalizado e desenfreado do betão e do alcatrão não é, ‘hélas’, de todo pacífico, tem contra-indicações ambientais. Para que se desfaçam as dúvidas vejamos o que diz a Ciência. (Continua: Contra-indicações ambientais do ‘todo alcatrão’)

PS: No momento em que acabava o meu texto, li na Semana Online, com estupefação a notícia que o Governo de Cabo Verde avança com a Cidade Administrativa. A notícia diz ‘O projecto, que lembra a capital federal Brasília, é financiado precisamente pelo Brasil no valor de 220 milhões de dólares’. Temos aqui o caso de um 1º Ministro que estudou no Brasil e que acha por bem edificar uma Brasília (capital federal do Brasil) na Praia, que vai custar a bagatela de 220 milhões de dólares. Este país pobre assistido financeiramente, que se aventura em plena crise internacional numa obra megalómana de interesse duvidoso, uma CASA PARA TODOS OS BUROCRATAS, é o mesmo que recebeu uma quantia semelhante dos EUA (MCA) com a finalidade de ser aplicada em infraestruturas e projectos de desenvolvimento. Não consigo perceber a racionalidade em gastar uma tão elevada soma tratando-se de um país com a realidade que se conhece, quando há muitos projectos de desenvolvimento mais prioritários, por exemplo nas restantes ilhas que não foram beneficiadas com o MCA. Em Portugal projectos financeiramente dispendiosos e de interesse económico duvidosos, foram suspensos após acesos debates técnicos e políticos. Quem vai pagar esta exorbitância? Onde param as oposições e os intelectuais neste país? Estarão eles de acordo com este projecto? Como René Dumond dizia “l’Afrique est mal partie”

Bibliografia :

http://asemana.sapo.cv/spip.php?article75596&ak=1

Jean Yves Loude ,Cabo Verde-Notas Atlânticas, Publicações Europa-América, Eds 1999.

  1. Joaquim ALMEIDA

    Este texto do José F. Lopes portador de uma realidade que podemos considerar de preocupante no nosso, pais . Ainda bem que temos ,- na ( Diàspora ) cidadaos atentos pronto a denunciar o comportamento inaceitàvel deste governo , sem a minima parcela de sensibilidade em relaçao à verdadeira realidade da situaçao do nosso pais .O que eu acho extranho é a atitude dos partidos na oposiçao , particularmente do MPD ,nao agindo como um partido na oposiçao!.. ( EXTRANHO COMPORTAMENTO !.. ) MORGADINHO !..

  2. Crao Josè, Certo que o alcatrão faz lindas estradas,ruas etc.,deixando tudo limpinho na sua passageme e, não se pode evitar o que chamam de progresso. Mas não esquecer que onde o alcatrão pega a vida morre.As plantas e o seu ciclo do azoto desaparecem e com elas toda a vida dependente. Bem se vê que muitos não conheceram as Escola Litológica ou seja do trabalho da PEDRA dos tempos do Presidente da Camara Municipal de S.Vicente Sr.Julio Oliveira.A isso devemos o excelente calcetamento da Cidade do Mindelo de outrora hoje abandonado e deixado por conta. As verdadeira e lindas Praça Estrela de outrora,Pracinha d’Igreja hoje assassinadas por incúria e ignominia de certos responsáveis.Me lembro de ver os calceteiros com o seu pequeno banco e os seus utensilios de trabalhar a pedra ali na Praça Estrela fazendo reparação da antiga Praça em cotas bem milimetradas…UMA BELEZA! Encontrei esse mesmo tipo de trabalho em grande na nossa Ilha irmã de Santo Antão nas estradas “un vrai chef-d’oeuvre” que se releva de um quadro artistico tal como “Os Calcetereiros” de Pablo Picasso.Enfim, sou pela NATUREZA e em nada impediria de se preservar nem que fosse ao minimo certas belezas naturais como o calcetamento em vez o maldito alcatrão.Esta é minha opinião et cela n’engage que moi!!! Abs Zizim

  3. Nenass

    …burocratas… e bo 1 BURROCRATA!!!! Ba espià ajuda mèdica pà!!!

  4. Josè Almada

    èss Lopes limita-se a transcrever o que os outros dizem e escrevem e depois armasse em regionalista…. Nao enganas ninguèm men.

  5. Adriano Miranda Lima

    Artigo lúcido e bem escrito por quem fala do que sabe.
    A modernização da nossa terra não pode ser feita à base de estereótipos importados. O alcatrão pode ser solução para estradas. Mas a urbe, sobretudo a parte histórica, tem de salvaguardar aquilo que é marca do seu património, a pedra. Somos ricos em pedra, ao passo que o alcatrão é importado. Saibamos privilegiar o calcetamento onde ele empresta à cidade a sua autenticidade e preserva a sua memória. Mas é bom que se crie uma escola de calcetamento, porque uma boa calçada não pode ser um amontoado desalinhado de pedras, como se vê nalgum calcetamento feito em zonas novas da periferia. Tem técnicas e tem regras, em que a estética tem de conciliar-se com a praticabilidade dos pisos.

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